Se chorei ou se sorri…


Dez momentos de emoção à flor da pele (pelo menos pra mim) em 2015

 

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Vou pular o discurso sobre a relatividade das sensações. O sujeito ter um blog já pressupõe uma boa dose de egocentrismo, ou amor próprio (chamem como quiser). Fato é que as pessoas que acham que não há de interessante na forma como elas veem o mundo, não se preocupam em escrever sobre nada. Enfim, esses momentos foram de muita emoção para mim, mas não são particulares meus.

Ou seja, acredito sim, que mais pessoas vão se identificar com eles e que, ao terminar de ler este texto, muitos vão dizer “olha, também chorei!”. Segue, em ordem mais ou menos cronológica.

P.S.: O Piores 2015 vem ai! Não publiquei ainda porque o ano está potencialmente ridículo. Acho que só dia 31 mesmo! Por enquanto, Feliz Natal e boa leitura!

 

 

1 – #JeSuisCharlie

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“Que tanto mal faz ter religiosos na política?” Essa pergunta foi feita a mim durante um debate nas redes sociais em 2012. Minha resposta foi “pergunte aos povos do Oriente Médio ou a judeus e palestinos”. Mesmo o Brasil não sendo um lugar onde essa mistura azeda (ainda não é, mas acredito que logo vá ser), sempre fui um ferrenho combatente do envolvimento de religiosos com a vida pública. Exemplos não nos faltam e na primeira semana de janeiro a hashtag #JeSuisCharlie (#EuSouCharlie, em português) denunciou ao mundo até onde isso tudo pode chegar.

Algo a se saber sobre fanáticos religiosos (de qualquer religião): 1 – eles são absolutamente burros, incapazes de qualquer abstração; 2 – eles se julgam demasiadamente importantes a ponto de considerar tudo como um insulto pessoal. 3 – eles são violentos.

Isso posto, vamos ao fato. No dia 7 de janeiro, terroristas armados invadiram a redação do jornal Charlie Hebdo e abriram fogo contra todos que viram pela frente. Na contagem total de mortos, 19, estão inclusos os três terroristas. Eu me nego a contabilizar assim. Foram 16 humanos mortos e três terroristas. Entre as vítimas, 12 jornalistas, companheiros de profissão, que não estavam fazendo nada além de exercitar a sagrada liberdade de expressão, tão venerada em países livres. Fica para a posteridade o vídeo do terrorista atirando à queima roupa em uma policial, caída, desarmada. Na mesma ação, também invadiram e mataram pessoas em um mercado especializado na culinária judaica.

 

2 – José Rico & Inezita

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Se eu sou um intelectual? Talvez. Caipira? Com muita certeza e orgulho. E o começo de março foi triste para quem se acostumou com a verdadeira música sertaneja, com as mortes de José Rico e Inezita Barroso. Dois dos últimos ídolos da música sertaneja de verdade, estilo musical hoje perdido em um mar de acefalia, com incitação ao sexo, ao alcoolismo e “letras” que trocam a velha poesia bucólica por ruídos como ai ai ai, ui ui ui, tcha, tche, tchu. Perdas irreparáveis.

 

3 – Sergio Moro ovacionado!

Não consegui conter o choro ao ver doutor Sérgio Moro – juiz da operação Lava-Jato – ovacionado em suas aparições públicas. Visivelmente constrangido, não quis comentar a situação e limitou-se a dizer que estava apenas cumprindo com o seu dever. Para os brasileiros honestos (sim, eles existem!) Moro representa a esperança do fim da impunidade. Aconteceu pela primeira vez no dia 14 de maio, em uma livraria em São Paulo, e a cena se repetiria por muitas vezes ao longo do ano. Emocionante!

 

4 – Pedras… em nome de Jesus

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No dia 14 de julho, uma criança de 11 anos foi apedrejada (isso mesmo, apedrejada) no Rio de Janeiro por dois homens de Bíblia em punho gritando “vai para o Inferno” e “Jesus está voltando”. O crime? Ela estava saindo de um culto de candomblé, com sua família. Parabéns! Jesus ficou orgulhoso. Só que não.

 

5 – Sob as asas de Aylan Kurdi

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Eu já sabia das atrocidades do Estado Islâmico (inclusive no ataque à revista Charlie Hebdo). O mundo todo já sabia. Eu já sabia sobre a complicada situação da população síria, massacrada por uma guerra civil do seu estado corrupto e ditador contra os rebeldes do Estado Islâmico, onde guerra com facínoras dos dois lados. Mas o corpo do garoto Aylan Kurdi, resgatado em uma praia da Turquia, despertou a mim – e ao mundo – para a crise humanitária causada pela imigração sistemática do povo sírio tentando, a qualquer custo, fugir da guerra. Kurdi, quatro anos, entrou em uma balsa alugada por traficantes de pessoas e, junto com sua família, se aventurou a cruzar o mediterrâneo. Naufragou e morreu, igual a outras dezenas de milhares de pessoas. Mas a imagem de seu corpo despertou o mundo.

 

6 – Poesia!

Agradeço a Deus pelo dom de me emocionar frente ao que há de belo, tanto quanto choro pelas atrocidades. Dia desses, ouvindo a RM 87, parei o carro para chorar ao som dessa belíssima e singela obra literária do padre Fábio de Melo. Emocionante, genial, abençoado!

 

7 – O adeus a Fabiano Fernandes

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Morreu no começo de outubro deste ano o radialista Fabiano Fernandes, menos de um mês antes de completar 39 anos. Comunicador de extrema categoria, considerado um dos mais importantes da região, era exemplo de profissionalismo para todos os comunicadores brasileiros, país onde a nobre profissão é tristemente invadida cotidianamente por falsários. Mas, ele ficou marcado por outra qualidade: a coragem na luta contra a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), a mesma doença que acomete o gênio Stephen Hawking. Descobriu a doença em 2011 e mesmo com todas as limitações a ele impostas pela enfermidade, continuou com suas funções na 94 FM (era locutor e com a deterioração da fala, concentrou-se na função de coordenação artística) até pouto tempo antes de não ter mais condições de trabalhar. Cerca de 15 dias antes de sua morte, estreou uma coluna na revista AZ Bauru.

 

8 – Mariana!

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No dia 5 de novembro, duas barragens da mineradora Samarco se romperam, destruindo quase que totalmente a histórica cidade de Mariana, em Minas Gerais e matando totalmente o Rio Doce com materiais tóxicos, dejetos da atividade mineradora. Enquanto escrevo este texto, outra barragem ameaçava se romper…

Uma área de 10 mil quilômetros quadrados (seis vezes o tamanho da cidade de São Paulo) foi soterrada com lama, em pelo menos dois estados, Minas e Espírito Santo. Tragédia ambiental que vai demorar séculos para ser reparada pela natureza e a morte de toda a vida vegetal e animal que estava no caminho, além de danos sócioeconômicos catastróficos.

A culpa? Fácil. A empresa foi negligente e pra garantir a institucionalização da sua negligência, financiou a campanha de uma série de deputados que deveriam fiscalizar o andamento dos trabalhos. O Governo Federal fingiu que não viu e assim fez-se a lama! Brasil, sendo Brasil.

 

9 – #PrayForParis

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E adivinhem quem é protagonista de mais esse negro capítulo de 2015? Sim, Estado Islâmico e a nefasta mistura de política e religião. No dia 13 de novembro terroristas promoveram explosões em pelo menos três pontos diferentes da capital francesa e um fuzilamento em massa de jovens curtindo a balada no tradicional Teatro Bataclan (que em nota oficial, os imbecis chamaram de “antro de libertinagem”). O ataque deixou mais de 350 pessoas feridas, 130 seres humanos mortos (nessa conta não considero os sete terroristas suicidas) e gerou o primeiro toque de recolher na França desde a Segunda Guerra Mundial. A hashtag #PrayForParis se espalhou pelo mundo em poucas horas e deu origem à maior caçada ao Estado Islâmico desde o seu surgimento.

 

10 – Imagine

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Um dia depois dos ataques em Paris tive a honra de estar em São Paulo, no Estádio do Morumbi, para o show da banda Pearl Jam. Os músicos estavam não menos abalados do que eu, com a Torre Eiffel no tampão da bateria e uma camisa escrito “Unfuck The World”. A multidão abriu os braços e saudou a forte chuva como uma benção dos céus e, a convite de Eddie Vader, acendeu as luzes dos celulares e cantou o hino da humanidade unida, próspera e feliz, “Imagine”, de John Lennon. Momento único! “Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz!”