“Se consagrou sangra agora!” – A mágica do Teatro Mágico


Se lembrar não é celebrar/ Dura é a dor quando aflora/ Esquecer não é perdoar/ Se consagrou, sangra agora Quanta mudança Alcança o nosso ser Posso ser assim Daqui a pouco não Quanta mudança Alcança o nosso ser Posso ser assim Tempo de dar colo Tempo de decolar Tempo de dar colo Tempo de decolar O que há é o que é E o que será Nascerá, nascerá Tempo de dar colo Tempo de decolar Tempo de dar colo Tempo de decolar O que há é o que é E o que será Nascerá... Será? Reciclar a palavra O telhado e o porão Reinventar tantas outras Notas musicais Escrever um pretexto Um prefácio e um refrão Ser essência muito mais Ser essência muito mais A porta aberta, o porto A casa, o caos, o cais Se lembrar de celebrar muito mais Se lembrar de celebrar muito mais Se lembrar de celebrar muito mais Se lembrar de celebrar muito mais Se lembrar de celebrar muito mais Muito mais A ciência, a essência A poesia prevalece

Se lembrar não é celebrar/ Dura é a dor quando aflora/ Esquecer não é perdoar/ Se consagrou, sangra agora

Ando totalmente desiludido com os artistas brasileiros. Para mim, 2014 vai ser o ano em que o compositor que eu julgava o mais respeitável, Chico Buarque, entrou para o grupo onde já estavam Caetano Veloso e Lobão: o de artistas que há muito tempo não fazem nada que presta e que só aparecem na mídia para falar besteira.

Desejo vida longa ao Chico. Desde que fique na França e não volte. De preferência, que leve com ele toda a esquerda-caviar brasileira e que só volte a cada quatro anos pra votar no PT. Se ficar de boca fechada, melhor ainda.

Enquanto isso, a direita-mortadela (categoria na qual eu me incluo) fica por aqui pagando quase R$ 4 no litro de gasolina e procurando algum artista que seja refúgio para suas almas inquietas. Mas, no processo de estupidificação da música brasileira, acelerado com a morte da Cássia Eller em 2000, todos ficamos órfãos, pagãos, em busca de uma tábua de salvação.

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Eis que surge o Teatro Mágico. Uma banda péssima, musicalmente falando, com vocal desafinado (apesar do ProTools) e arranjos cafonas, misturando riffs de guitarra punk-rock oitentistas com violinos a la Gardel e gaitas irlandesas do final do século 19.

O rock n’ roll me representa! E nada é mais rock n´ roll do que ser limitado musicalmente e ainda assim tocar o coração das pessoas. O Teatro Mágico faz isso (apesar da subliminar militância PSOLista que é possível captar em várias de suas canções).

Arrisco-me a dizer que, tirando o meteoro Cordel do Fogo Encantando, que desapareceu tão rápido quanto surgiu, Teatro Mágico é a tábua de salvação da música brasileira até agora no século 21. Com uma espantosa simplicidade retórica, reforça a cada acorde, cada verso, seu compromisso com a mensagem, apesar da estética elaboradíssima e que chama atenção, seja nos shows, seja em qualquer material da banda.

Trocadilhos surpreendentes, rimas improváveis, compromisso com a arte poética. Graças a eles, Teatro Mágico, uma geração inteira de jovens brasileiros vai chegar à vida adulta sem considerar a poesia algo piegas e restrito aos inacessíveis círculos intelectualóides.

Obrigado trupe, a poesia prevalece!

ps.: tomo a liberdade de postar uma seleção das minhas preferidas, com ou sem cafonice sonora e sem me importar com a precisão tônica do vocal.

Reticências

O Teatro Mágico

Quanta mudança
Alcança o nosso ser
Posso ser assim
Daqui a pouco não

Quanta mudança
Alcança o nosso ser
Posso ser assim
Daqui a pouco

Se agregar não é segregar
Se agora for, foi-se a hora
Dispensar não é não-pensar
Se saciou, foi-se embora

Quanta mudança
Alcança o nosso ser
Posso ser assim
Daqui a pouco não

Quanta mudança
Alcança o nosso ser
Posso ser assim
Daqui a pouco

Se lembrar não é celebrar
Dura é a dor quando aflora
Esquecer não é perdoar
Se consagrou, sangra agora

Quanta mudança
Alcança o nosso ser
Posso ser assim
Daqui a pouco não

Quanta mudança
Alcança o nosso ser
Posso ser assim

Tempo de dar colo
Tempo de decolar

Tempo de dar colo
Tempo de decolar

O que há é o que é
E o que será
Nascerá, nascerá

Tempo de dar colo
Tempo de decolar

Tempo de dar colo
Tempo de decolar

O que há é o que é
E o que será
Nascerá… Será?

Reciclar a palavra
O telhado e o porão
Reinventar tantas outras
Notas musicais

Escrever um pretexto
Um prefácio e um refrão
Ser essência muito mais

Ser essência muito mais
A porta aberta, o porto
A casa, o caos, o cais

Se lembrar de celebrar muito mais
Se lembrar de celebrar muito mais
Se lembrar de celebrar muito mais
Se lembrar de celebrar muito mais
Se lembrar de celebrar muito mais

Muito mais
A ciência, a essência
A poesia prevalece

A Primeira Semana

O Teatro Mágico

Antes que o tempo, a Clave
De Fá, Dó, Si, Lá, Sóis
Antes da noite, uma tarde
Pra cada um de nós

Antes do barco, a chuva
Antes da roda, o frio
Antes do vinho, a uva
A fruta que não caiu

Fez dessa Terra um cenário
Pras peças que nos pregaram
Fez bico de pena e diário
Pra escrevermos a regra e a exceção

Criou o perdão e o pecado
Criou a dor e o prazer
Criamos o certo e o errado
E o orgulho pra nos esconder
Do que prevalece em nós

Antes que o tempo, a Clave
Sustenidos e bemóis
Antes do inteiro, a metade
Um’outra parte de nós

Antes do voo, o tombo
Um uta pra não chorar
Antes tardio do que nunca
Pra nunca mais demorar

Antes do homem o medo
Antes do medo o amor
Antes do amor a dúvida
Pois nem Deus sabe quem criou
E o que prevalece em nós

Exílios calados quimeras que exalam sós
Exílios calados quimeras que exalam sós

E tudo que eu criar pra mim
Vai me abraçar de novo semana que vem

E tudo que eu criar pra mim
Vai me abraçar de novo
Vai me negar também
Semana que vem

O Anjo Mais Velho

O Teatro Mágico

“O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente”

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete, a cena se inverte
Enchendo a minha alma daquilo que outrora eu
Deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto… depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete, a cena se inverte
Enchendo a minha alma d’aquilo que outrora eu
Deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto… depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto… depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar

Realejo
O Teatro Mágico

Será que a sorte virá num realejo?
Trazendo o pão da manhã
A faca e o queijo
Ou talvez… um beijo teu
Que me empreste a alegria… que me faça juntar
Todo resto do dia… meu café, meu jantar
Meu mundo inteiro…
que é tão fácil de enxergar… E chegar

Nenhum medo que possa enfrentar
Nem segredo que possa contar

Enquanto é tão cedo
Tão cedo

Enquanto for… um berço meu
Enquanto for… um terço meu
Serás vida… bem vinda
Serás viva… bem viva
Em mim

Será que a noite vira num vilarejo
vejo a ponte que levara o que desejo
admiro o que há de lindo e o que há de ser… você

Enquanto for… um berço meu
Enquanto for… um terço meu
Serás vida… bem vinda
Serás viva… bem viva
Em mim

“Os opostos se distraem
Os dispostos se atraem”

Sina Nossa

O Teatro Mágico

Mia senhora,
És de lua e beleza
És um pranto do avesso
És um anjo em verso
Em presença e peso
Atrevo-me atravesso
Pra perto do peito teu

Teu sagrado e tua besteira
Teu cuidado e tua maneira
De descordar da dor
De descobrir abrigo
Entre tanto amor
Entretanto a dúvida
A música que casou
Um certo surto que não veio

Há uma alma em mim,
Há uma calma que não condiz…
Com a nossa pressa!
Com resto que nos resta
Lamentavelmente eu sou assim…

Um tanto disperso
Às vezes desapareço
Pois depois recomeço
Mas antes me esqueço

Nossa sina é se ensinar…
A sina nossa é…
Nossa sina é se ensinar…
A sina nossa…

Minha senhora diz:
Bons ventos para nós
Para assim sempre
Soprar sobre nós…

O Que Se Perde Enquanto Os Olhos Piscam

O Teatro Mágico

Pronde vai?
Toda tampa de caneta?
Todo recibo de estacionamento?
Todo documento original?
Isqueiro, caderneta,
A camiseta com aquele sinal…
Pronde vai… toda palheta?
Pronde foi… todo nosso carnaval?
Pronde vai?
Todo abridor de lata?
Toda carteira de habilitação?
Recado não dado, centavo, cadeado?
Todo guarda-chuva!
Pra fuga pro temporal!
Pronde vai… o achado, o perdido?
Eu não sei, veja bem…
Não me leve a mal…
Pronde vai?
Todo outro pé de meia,
Carteira, brinco e aparelho dental?
Pronde vai… toda diadema?
Recibo, receita e o nosso enredo inicial?
Pronde vai?
Toalha de acampamento,
Presilha, grampo, batom de cacau
Elástico de cabelo
Lápis, óculos, clips, lente de contato?
A nossa má memória!
A denúncia no jornal?
Pronde vai… aliança, chaveiro, chave, chinelo?
E o controle pra trocar canal
Pronde vai?
O solo que não foi escrito?
Labareda nesse labirinto,
O instinto, o reflexo, sem seguro
O coro do socorro! o lançamento oficial!
Pronde vai… a culpa da cópia?
Pronde foi… a versão original!?
Pronde vai?
A bala que se disparou?
O indício do vício que disseminou
A busca do corpo por algo vital?
A firmação do pulso! o discurso radical!
O troco em moeda… a lição da queda
Pronde foi… nosso humor e moral?
Pronde vai? todo nosso desalento
Morre brisa nasce vendaval
Pronde vai a reza vencida pelo sono
Ela vale? me fale… me de um sinal!

São Longuinho
Me fale me de um sinal!

Pra onde foi?
O canhoto, benjamim de tomada
Simpleza, prudência, consideração?
A clareza, autenticidade, compaixão, certeza, a urgência e o perdão?
Carregador de bateria,
O extrato, a ponta, a conta nova, a cola e a extensão?
O estímulo,o exemplo, a voz dissonante…
A coragem do meu coração!

São Longuinho, são Longuinho
Me fale me dê um sinal!
São Longuinho, são Longuinho
Pra onde foi?
A coragem do meu coração!

Folia No Meu Quarto
O Teatro Mágico

Se água nos olhos do palhaço molha
Menina dos olhos abandonada

Boneca de pano, de pena, chora quando
Água dos olhos da gente escorre

Corre beirando boca, rio, beirão
Dorme junto ao coração
Faz do peito cachoeira

Leva, lavando, me deixando leve
Que a certeza não escorregue
Feito pedra de sabão

Bola, vidro, janela, bronca, tapa
Dias e dias sem televisão
Fecho porta pra não escutar briga
E, também, pra briga não escutar minha canção

Que faço distraindo a vida
Vou traindo minha sina
Distraindo decisão
Falo coisas que as vezes não faço
Sou boneca, sou palhaço, ponto de interrogação

Todo ser seria
Todo rio riria
Toda flor folia
Abajour pra escuridão

Toda brincadeira começa com alegria
Mas o sino do almoço troca o riso por feijão

Todo ser seria
Todo rio riria
Toda flor folia
Abajour pra escuridão

Toda brincadeira começa com alegria
Mas o sino do almoço troca o riso por feijão

Quero mais careta no retrato
Quero mais folia no meu quarto
Quero mais careta no retrato
Quero mais folia no meu quarto

e, por fim (deixada por último de propósito) esta que talvez explique a receita mágica do Teatro Mágico: “difícil é ser tão simples)

Nas Margens de Mim
O Teatro Mágico

Eu me senti como um rei
Me larguei, dormi, nas margens de mim
Me perdi por querer, eu não fiz, não fui
Me desaprendi

Eu quis prestar atenção
Tudo o que é menor, mais lento e baldio
Deixo o rio passar tão voraz, veloz
Me deixo ficar

Quando o sol acena bate em mim
Diz valer a pena ser assim
Que no fundo é simples ser feliz
Difícil é ser tão simples
Difícil é ser tão simples
Difícil mesmo é ser

Me recolhi, fiquei só
Até florescer
Desapego e raiz, improviso e razão
Canto pra colher, agora e aqui

De qualquer maneira parte em mim
Diz valer a pena ser assim
Que no fundo é simples ser feliz
Difícil é ser tão simples
Difícil é ser tão simples
Difícil mesmo é ser