O futuro do jornalismo – se é que ele existe


jornais: com os dias (ou anos) contados?

jornais: com os dias (ou anos) contados?

 

Quando entrei na faculdade de jornalismo, no longínquo ano de 1998, a internet era apenas mais uma ferramenta, de acesso elitizado, público indefinido e alcance restrito. Na época, perguntados sobre o futuro dos meios de comunicação então dominantes do mercado (e sobre o futuro da profissão propriamente dita), meus professores eram unânimes em discursar que jamais o jornalismo impresso deixaria de existir.

Curiosamente todos davam o mesmo exemplo: “Diziam que o cinema mataria o teatro, depois, que o videocassete substituiria o cinema. E os três continuam. Com o jornalismo é a mesma coisa: disseram que o rádio mataria o impresso e que a TV substituiria o rádio”.

 

Lá se foram 15 anos e a internet está matando o jornalismo impresso e a TV. Basta observar.

Em abril deste ano O Estadão refez a organização de seus cadernos, chegando a um modelo declaradamente mais barato, alcunhado de “sustentável e 2.0”. Um jornal com menos papel e que logo será feito por menos pessoas, em uma transição explícita para os meios digitais.

 

O centenário Jornal do Brasil encerrou sua versão impressa – que registrava uma queda de arrecadação na casa dos 80% – em setembro de 2012. O que já avia acontecido antes com o Lance! e uma série de outros veículos carismáticos e de marca forte. Isso sem contar os incontáveis jornais e revistas que, quando a água bateu no pescoço, não tinham estrutura digital suficiente para comportar a migração para a internet e tiveram que encerrar as atividades.

A Editora Abril, uma das gigantes brasileiras do mercado de comunicação – que tem sete das dez revistas mais lidas do país – é o exemplo claro desse fenômeno: se prepara para reduzir 20% de suas 52 publicações e tem meta de enxugar sua máquina em R$ 100 mi o seu custo anual de operação.

A estimativa é de 10 mil demissões, só nessa tacada, apesar de fontes ligadas ao grupo falarem do grupo falar em “até” mil vagas a menos. Já falaram até no fim das conceituadas Playboy, Capricho Contigo!, informação que o Grupo Abril correu para contestar.

O processo na Abril ainda está acontecendo, e bombando pela rede em blogs de jornalistas, muitos dos quais, prejudicados direta ou indiretamente com as mudanças que estão acontecendo. Isso quer dizer que as informações não sejam totalmente isentas, porém, que está acontecendo algo, isso está.

De certo mesmo até agora, o fim da MTV Brasil e cerca de 100 demissões.

 

Por falar em TV, as líderes em telecomunicação no Brasil estão mal das pernas (menos o Sbt, que é gerida por um financeiro acima da média). Na toda poderosa Rede Globo, os infantis estão exilados no Gloob, canal da emissora na TV a cabo. A explicação da Vênus Platinada é clara: não dá audiência, nem retorno.

 

Na Record, crise absoluta, com a demissão forçada de Gugu Liberato – a emissora plantou a notícia de que era ele e seu salário de R$ 3 milhões/ mês ou mil colaboradores do quadro – a queda de uma série de executivos até então poderosos e a substituição de líderes de departamento. Antes promissora na teledramaturgia, a TV do bispo Edir Macedo tirou o pé do acelerador e cancelou uma série de produções já previstas.

 

Até meados de 2012, a TV liderava absoluta a preferência das verbas para propaganda, com 60% do total de investimentos. Época em que o jornal impresso foi ultrapassado pela internet em quantidade de recursos financeiros para publicidade: 11,9% contra 11,06%. A previsão era de que a rede terminasse o ano passado abocanhando mais de 13% da verba reservada para marketing.

Muita gente deve estar se fazendo a seguinte pergunta: o que tudo isso tem a ver com o Jornalismo propriamente dito?

Simples: A internet não contrata jornalistas, empresas contratam. E as empresas de comunicação que ainda não sabem faturar com a rede saem atrás na corrida pela sobrevivência.

 

Muitos apostam no jornalista como um conceito para o futuro, em um mundo em que cada cidadão conectado será um comunicador e a quantidade de informações será tão absurdamente variada que vai sofrer (já sofre) com as crises de credibilidade. Mas isso é assunto para outra postagem.

Nunca tive nada a ver com TV. Já tive boas experiências no rádio. Aliás, se há 15 anos, quando entrei na faculdade, o rádio estava renegado ao submundo dos anunciantes, hoje as emissoras de rádio dão um show de uso da internet como ferramenta de otimização de seu funcionamento, consequentemente, da sua arrecadação.

Mas desde o primeiro dia de faculdade – na verdade, desde pelo menos uns dois anos antes – minha afinidade sempre foi com o impresso. Aquele mesmo que os professores de 1998 juravam que nunca deixaria de existir. Eu acredito, infelizmente, no fim gradativo do papel para uso cotidiano (assim como acredito em um futuro vegetariano). Uma gama de pesquisadores e estudiosos da comunicação concorda comigo: o jornal nosso de cada dia está cada vez mais perto e próximo do fim.

O teatro, o cinema e o homevideo ainda existem, só sepultamos o videocassete – depois o DVD – passando para a era do blu ray (com a concorrência implacável do Netflix).

O curso de Jornalismo? Ainda existe, e até “ensina” sobre jornalismo digital. Mas desde 2009 foi declarado legalmente inútil para a prática diária da profissão/função/missão de captar, transformar e difundir informação. Por consequência – e aparentemente, não à toa – tudo o que os professores profetizaram naquela época, também.