Canções de revolução


Os dois distintos - nada boêmios - gentlemans na foto são Tom Jobim (à esq) e Chico Buarque de Holanda; ao centro, Cynara e Cibele, intérpretes de "Sabiá", grande vencedora da edição 1968 do Festival Internacional da Canção

Os dois distintos – nada boêmios – gentlemans na foto são Tom Jobim (à esq) e Chico Buarque de Holanda; ao centro, Cynara e Cibele, intérpretes de “Sabiá”, grande vencedora da edição 1968 do Festival Internacional da Canção

 

 

O país está pegando fogo e isso muito me anima. Mas confesso que uma peculiaridade me deixa triste: esta será uma revolução sem canções. A música, as artes em geral, desta vez não estão ao lado do povo, norteando filosofias, ajudando a sonhar com o futuro.
Até dói pensar que daqui 50 anos, quando alguém fizer o que eu e muitos outros já fizeram, pesquisar a história deste movimento, ele vai vir sem trilha sonora. Ou pior, vai ser acompanhado do que disse a mulher moranguinho, o Latino ou o Michel Teló.

Conforme prometido no meu outro post sobre a musicalidade da Primavera Brasileira, hoje trago um “cardápio” com canções que embalaram a luta contra a Ditadura Militar, nos anos 1960 e 1970, escritas por pessoas que realmente participaram do movimento, não o acompanharam pela TV.

‘Pra não dizer que não falei de flores’

De Geraldo Vandré, é sem dúvida o mais famoso hino anti-repressão da história do Brasil. A canção foi a vice-campeã do Festival Internacional da Canção, em 1968, depois, devidamente censurada. Teve sua execução proibida até 1979, no início da abertura política, mas de versos com rimas simples e sonoridade de um hino, a genial canção de Vandré – que desdenhava do Exército e chamava o povo para as ruas – foi cantada exaustivamente pelo nas ruas até o fim do regime.
O vídeo, inclusive, é a gravação do próprio festival de 1968. A vaia do público foi para o segundo lugar de Vandré, que o povo esperava ver campeão daquela edição. A música vencedora foi Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobin, artistas que ele fala “merecem o nosso respeito”. A canção, aliás, viria a vencer a fase internacional do festival.

‘Mosca na Sopa’

De Raul Seixas, é uma das mais claras referências ao esforço de censura da mídia e das artes por parte do Regime Militar. “E não adianta vir me dedetizar porque nem o DDT pode assim me exterminar, porque você mata uma e vem outra no lugar”. Censura? Que nada. Gravada em 1973, configurou-se como um dos mais homéricos balões que os censures tomaram da música brasileira.
Aliás, Raul Seixas – que já rendeu uma bela postagem neste blog – nunca foi levado a sério pela Ditadura. Ou nunca foi compreendido. Raul teve problema com o Regime Militar por causa de duas canções, que nada tinham a ver com a batata. “O rock das aranhas”, por descrever uma relação lésbica, e “Sociedade Alternativa”, do movimento satanista que ele iniciou ao lado de Paulo Coelho, e que confundiu os gênios da censura.

´É proibido proibir’

No mesmo festival em que o vice-campeonato de Vandré foi vaiado, Caetano Veloso foi massacrado pelo público, depois desclassificado pelos jurados. Culpa de “É proibido proibir”, canção que fala sobre os movimentos econômico-sociais que transformavam o mundo – inclusive o Brasil – na década de 1960.
A canção foi a gota d’água para Caetano que, em 1969, foi preso pelo Regime Militar e exilado em Londres. De onde aliás, veio London London, uma de suas mais belas canções.

‘Geração 70’

Sabem quem foi – numericamente falando- o artista que foi mais vezes censurado pela Ditadura? Errou quem apostou em Chico Buarque, inimigo número 1 do Estado. Errou também quem respondeu Caetano, Gil, Tom Zé e qualquer outro da belíssima Tropicália.
O campeão de intervenções do carimbo da censura é o desconhecido (pelo menos pelo grande público) Taiguara, que teve nada menos que uma centena de canções proibidas de serem gravadas ou executadas pelas emissoras de rádio e TV.
Para historiadores do regime militar, suas composições mais politicamente relevantes foram feitas em Londres, em inglês, só para ingleses e afins. Tomei a liberdade de selecionar uma de suas canções na língua nativa, a escolhida, “Geração 70”, gravada em 1973, fala, entre outras coisas, a “resistir sem medo à solidão de um tempo de guerras”.

“Deus lhe pague”

“O Chico não presta, com aquela cara de bom moço”. A afirmação é sobre Chico Buarque de Holanda feita a mim mesmo por um de seus melhores amigos, o escritor Mário Prata. Imaginem a mistura de neurônios, retórica, molecagem e uma tia malvada para sofrer com suas travessuras.
Assim era Chico Buarque, e a tia malvada era o Regime Militar. Chico foi uma das figuras que mais infernizou a censura e protagonizou passagens dignas de registro, como a criação de uma “identidade secreta”: Juninho de Adelaide. Rezam os becos revolucionários da época que uma das principais diversões de Chico depois de exagerar na cerveja pelas ruas de São Paulo era se travestir de Adelaide e dar declarações do tipo “Quem que é esse tal de Chico Buarque que fica falando que é Juninho de Adelaide? Quem ele pensa que é?”.
Poderia citar ou linkar uma infinidade de canções, desde as mais conhecidas “Cálice” e “Apesar de Você”, até outras mais undergrounds, como “Meu Caro Amigo” ou “Tanto Mar”.
Mas “Deus lhe pague” tem importâncias simbólicas. É a primeira música do lado a (naquele tempo tinha lado a e lado b) do álbum “Construção”, que é o marco do refinamento poético de Chico contra o sistema. Agressiva, pesada, ela rompe com o apreço do autor pela bossa nova e inaugura uma nova musicalidade para a MPB.

“Divino Maravilhoso”

Composição de Gilberto Gil – que nos anos 1960 começava a se consagrar internacionalmente como músico – , “Divino Maravilhoso” é um belo exemplo de balão na censura, que não viu mal algum nos versos “atenção para o refrão: é preciso estar atento e forte…”
A canção fez parte do disco “Tropicália ou Panis et Circenses”, de 1968, auge da efervescência político-cultural brasileira e ficou atrás de Tom & Jobim e Vandré, naquele mesmo movimentado festival de 1968.
O disco, um dos mais importantes da música brasileira, além de “Tropicália” e “Panis et Circenses”, tinha canções como “Miserere Nobilis”, “Baby” e “Parque Industrial”, reunindo, além de Gil, compositores como Caetano, Tom Zé e Torquato Neto, e interpretes importantes como Os Mutantes e Nara Leão.

“Roda Viva”

Se alguém merece duas músicas em uma lista de 9 anti-ditadura, certamente este alguém é Chico Buarque. Talvez nem tanto pela quantidade de obras, mas sim pela sua importância. “Roda Viva”. Gravada em 1968 para figurar na trilha sonora da peça de teatro homônima e também escrita por Chico e dirigida por José Celso Martinez Corrêa, ela teoricamente tinha pouca referências políticas, apesar das várias metáforas.
Mas eis que, no 18 de julho de 1968, um grupo de extrema direita intitulado Comando de Caça aos Comunistas, invadiu o teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e espancou o elenco da peça. A polícia foi chamada, fez um boletim de ocorrência e foi pra casa. O episódio chamou a atenção da opinião pública e aqueceu a mobilização dos artistas contra o Regime Militar.

“Aquele Abraço”

“O Rio de Janeiro continua lindo”. A afirmação fazia muito sentido na época, na boca de Gilberto Gil, que compôs “Aquele Abraço” depois que saiu da prisão direto para seu exílio em Londres. Preso em 22 de dezembro de 1968 até a quarta-feira de cinzas do ano seguinte e quando saiu, viu a cidade coberta pelos resquícios de carnaval.
Estudiosos da canção dizem que o abraço faz alusão ao Cristo Redentor, com uma provocação explícita ao exército no verso “alô, alô, Realengo, aquele abraço…”. Explica-se, Gilberto Gil ficou preso na Escola Militar do Realengo, hoje Cmdo da 9a Brigada de Infantaria Motorizada, sediada na Praça do Canhão. Gil escreveu a música durante seu exílio em Londres.

“O Bêbado e a Equilibrista”

Elis Regina não compunha, foi alçada à condição de estrela da música pelo seu carisma, sua voz potente e sua brilhante técnica vocal. Mas ela merece espaço nessa galeria por ser, na época, uma das figuras artísticas mais notadamente contra o Regime Militar que o brasileiro comum poderia apontar.
Nunca discreta, partiu como um leão para cima da Ditadura e entoou com orgulho ímpar, a belíssima canção de João Bosco e Adir Blanc, considerada pelos historiadores como um hino ao eminente fim da repressão. Gravada em 1979, ela é cheia de referências a intelectuais anti-governo, como o choro de “Marias e Clarices para o solo do Brasil”, em referência às viúvas de Manuel Fiel Filho e Vladmir Herzog, (operário e jornalista, respectivamente) que ergueram voz contra a repressão.