A revolução dos partidos encurralados


foto, se não me engano da Veja.com.br, manifestantes hostilizando a presença de partidos na avenida Paulista, em São Paulo

O título deste artigo foi o melhor que pude fazer para resistir à tentação de enunciá-lo em francês, ‘et vive la révolution!’, que fica bem mais sonoro, romântico e ainda insinua referência a movimentos sociais que deram certo no passado.

Porque também vou resistir à tentação de fazer um link com outros movimentos populares da história. Não porque ache que eles não tenham valor ou relação com o que acontece no Brasil de hoje.

Mas simplesmente por um egoístico exercício de foco e prioridades (leia, se quiser, sobre a Revolução Francesa e Maio de 1968).

 

Isso porque se a Copa não acontecer no ano que vem não vai mudar em nada minha vida. Como também não vai mudar se acontecer.

Mas se a revolução não acontecer dessa vez, vou ficar bastante chateado.

Além de significar tudo isso que eu já expliquei, o título desse artigo é um retrato 3×4 do atual cenário político brasileiro. O país está dividido em duas grandes frentes: uma que quer o fim dos partidos, uma nova Constituição e Joaquim Barbosa presidente de um governo de exceção; outra que quer o fim dos partidos e uma nova Constituição, não importando quem seja o presidente da transição.

Tudo isso permeado, é claro, por um bando de babacas que ou querem aproveitar a onda para emplacar ideias fascistas, ou não tem a menor ideia do que está acontecendo, mas acham bonito quebrar as coisas e saquear o comércio.

 

Resumo da ópera: se tudo correr bem, além da Copa – se é que teremos Copa – assistiremos ao fim dos partidos políticos como hoje conhecemos e a promulgação de uma nova Constituição.

 

Revolução e derrocada dos partidos são termos que habitam minha cabeça há alguns anos. Desde as eleições 2006, vejo uma falência ideológica (consequentemente, funcional) na relação entre a população e a engrenagem político-eleitoral brasileira. Traduzindo: do jeito que está não funciona e não há qualquer motivo, razão ou perspectiva me faça acreditar que, no atual sistema, a coisa vá melhorar.

O maior partido do país atualmente é o das pessoas que não acreditam em partidos. E sabem quem faz parte? Joaquim Barbosa, segundo ele mesmo já declarou.

 

Por que os partidos estão no paredão, junto com os homens públicos e a engrenagem política, propriamente dita?

 

Por vários fatores, e o principal é que as legendas, nos últimos 20 anos, pensam mais estrategicamente do que ideologicamente. Não há o debate político, nem ações de educação político-social, só o embate localizado.

Esse jeito de jogar o jogo inverte as finalidades e, obviamente, muda o jeito de vencer. Projetado para colocar no poder os grupos sociais mais numerosos do país – o clássico conceito de que “a maioria vence” – o nosso moinho eleitoral hoje é a plataforma de uma guerra econômico-partidária, que dá aos grupos sociais que tem mais dinheiro e influência social, o direito de “explorar” a estrutura pública nos territórios conquistados.

E, não importa a ideologia do partido nem o que pensa a população, no jogo eleitoral brasileiro pós-moderno, o que vale é ganhar e garantir mais um território para o partido.

Acho engraçado ver líderes partidários reclamando da hostilidade contra as legendas. É uma reação óbvia de quem está cansado: os partidos são expulsos das manifestações porque quem não faz parte da solução, faz parte do problema.

Se os partidos fizessem parte da solução, eles seriam mais criteriosos ao filiar seus quadros e lançar suas candidaturas, investiriam em educação política em vez de marketing eleitoral e seriam os primeiros a punir (e jamais defender!) homens públicos acusados e/ou condenados por corrupção.

Qual partido faz isso?

 

Antes de responder “nenhum”, quero fazer uma ressalva ao PSol, que defende o dinheiro público com unhas e dentes.

 

E é aí que mora a falência político-eleitoral brasileira. O caráter sagrado do dinheiro do contribuinte, que deveria ser regra fundamental para a participação na vida pública, é apenas a bandeira de um partido pequeno.

E nem o mais fanático militante do PSol pode esperar que o Brasil inteiro vá, de uma hora pra outra, votar na sua legenda “só” porque nenhuma das outras prima pela honestidade de seus correligionários.

 

Além disso, essa revolução é tão burguesa (ou mais) quanto as que aconteceram na França nos séculos 18 e 20, citadas no começo deste texto. As famigeradas classes populares brasileiras já se manifestaram neste ano, protestando às portas da Caixa Econômica Federal contra os boatos do cancelamento do Bolsa Família. Aquele é o público que o PSol pensa que defende.

Agora é a vez do setor produtivo, dos sem partido, mas com propósito. Só pode se cansar de alguma coisa aquele que a carrega nas costas. A burguesia fede, mas é de suor!

 

Tudo o que escrevi poderia ser, é claro, pura ficção ou laboriosos pensamentos de minha (in)fertilidade mental. Mas quando Élio Gaspari explica, em seu brilhante artigo na Folha de São Paulo deste domingo (23 de junho), parece que faz um pouco mais de sentido.

 

Só falta o Barbosa renunciar.