Quem matou Henrique Mucci?


henrique mucci

 

 

Diretamente? O tal motorista embriagado.

Mas esse homicídio (doloso sim, senhores, já que o cara assumiu o risco de dirigir sob efeito do álcool) foi cometido em vários graus e com uma infinidade de cúmplices, diretos ou indiretos.

O cúmplice mais decisivo deste crime é a sociedade brasileira em geral, que dia após dia faz apologia ao uso do álcool e em tom festivo. Essa sociedade alienada que tolera e apoia o consumo, que acha exagero os rigores da lei seca e defende o direito individual de beber na hora em que bem entender. Essa sociedade egoísta, que ensina e incentiva o consumo do álcool de geração para geração.

Outro cúmplice? A Legislação brasileira. No momento em que eu escrevia este texto (exatamente às 23h21 do dia 11 de março), a pessoa que atropelou e causou a morte de Henrique Mucci estava em vias de ser solto. A Legislação brasileira finge que cuida, finge que protege. Efetiva, de fato, seria se ela punisse com rigor os motoristas que matam no trânsito todos os dias. Efetiva, de fato, seria se ela, a Legislação, qualificasse o crime quando o causador de um acidente omite socorro.

Encerrando a discriminação da cumplicidade deste crime em nível macro vem a ignorância preconceituosa e conservadora do brasileiro. O cara que causou esse acidente provavelmente advém do mesmo grupo de babacas que aponta o dedo na minha cara e me chama de “bandido maconheiro”. Perdi a conta de quantas vezes aconteceu isso. Quem matou Henrique Mucci foi o moralismo acéfalo e apedeuta do brasileiro, que tolera e acolhe o alcoolismo e coloca o baseado no mesmo nível do crack ou do revólver calibre 38.

Agora, descrevendo a cumplicidade em nível micro. Quem matou Henrique Mucci? Nossa sociedade alcoólatra. Eu sou nascido e criado em Lençóis Paulista, logo, pra mim é tudo absolutamente normal. Mas quem vem de outras cidades se assusta com a quantidade de bares por habitante que a cidade tem. Num raio de 500 metros da minha casa, por exemplo, chutando baixo tem mais de 10. Alguns deles abrem às 8h e às 8h05 tem gente bebendo. Em que estado esse povo vai estar às 12h?

Todos esses bares funcionam de acordo com a Legislação? Isso é fiscalizado? “Duvido” é a resposta que eu dou para as duas perguntas. E todo mundo pode fazer este exercício: visualize uma circunferência de 500 metros de sua casa e conte quantos bares tem e em quantos deles o povo começa a beber logo cedo.

Aí eu abro o jornal e leio: “lençoense está satisfeito com a vida que leva”. Faça-me o favor! Por que um povo satisfeito bebe tanto?

E o que pode ser feito? Pra determinar que o Armazém feche à meia noite a lei municipal serviu muito bem. Quem quiser comprar uma caixa de leite depois desse horário tem que ir pra Bauru. Por que não determinar que todo e qualquer estabelecimento deste perfil só venda bebida alcoólica depois das 18h? Liberdade? Já está mais do que provado que a maioria dos brasileiros não sabe o que fazer com ela.

Sim, um motorista embriagado causou a morte de Henrique Mucci. E honestamente, eu espero que ele pegue regime fechado e responda por homicídio. Mas quem matou Henrique Mucci, direta ou indiretamente, fomos todos nós. Alguns por achar normal e tolerar o comportamento alcoólatra e achar que pessoas embriagadas são menos perigosas do que o usuário de crack, por exemplo, outros (e nesta lista eu me incluo), por nunca terem se levantado contra esse consumo cultural desenfreado de bebida alcoólica, por mais que se sintam incomodados com isso.

No entanto, mais importante do que apontar culpados, é preciso correr para remendar as falhas. Ao pensar sobre quem matou Henrique Mucci, mais do que assumir a minha parcela de culpa, estou meditando sobre essas falhas, em todos os níveis, que provocam situações como esta, dia após dia, todos os dias. Se cada um de nós se perguntar o que pode acontecer para que outros pais de família como ele não sejam vítimas no futuro, vamos evitar que sua morte tenha sido em vão.