Legião e a trilha sonora da minha vida


Da esquerda para a direita, Renato Rocha, Dado Villa Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá

Da esquerda para a direita, Renato Rocha, Dado Villa Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá

Relembrando, a coluna “trilha sonora da minha vida” já foi ao ar uma vez, com Raul Seixas.

A Legião Urbana é, certamente, a banda mais importante na minha formação cultural e de caráter. Fui um dos milhões de jovens brasileiros que tiveram a construção filosófica norteada pela verve dos garotos-prodígio de Brasília.

E, pasmem os leitores, quando completei meu perfil de identificação musical, entre 12 e 14 anos, eu não gostava de Legião Urbana. Achava “Índios” chata, “Meninos e Meninas” sem graça e “Faroeste Caboclo”, um simples golpe de sorte. Essas eram as três músicas da banda de Brasília que eu conhecia até 1993, quando foi lançado “O Descobrimento do Brasil”, sexto álbum do grupo. Foi um choque de entendimento musical e do rock, propriamente dito, representado por “Perfeição” e “Vamos Fazer um Filme”.

Descoberto o Brasil, fui me inteirar da obra de Renato Russo, Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá. E a primeira música que entrou para o meu repertório foi a mais famosa da época. “Pais e Filhos”, em sua versão ao vivo do “Música para Acampamento”, tocava nas rádios até cansar os ouvidos.

Nos meses seguintes, comecei a descobrir o que a Legião tinha a oferecer. Conheci e aprendi a tocar todos os hits adolescentes da banda, obrigatórios em rodas de violão: “Eu sei”, “Será”, “Vamos Fazer um Filme”, “Faroeste Cabloco” (é claro), “Tempo Perdido” e várias outras. Mas foi a música que dava nome ao sexto disco que mais tarde viria a se tornar minha companheira de walk man (o ipod dos anos 80/90).

Quanto mais mergulhava na obra da Legião Urbana, mais descobria e entendia suas pérolas. Quando conheci Camões, foi a vez de adicionar “Monte Castelo” à lista. Mas nada que me surpreendesse tanto quanto as mais rebeldes criações de Renato Russo, “Química”, “Tempo Perdido” e “Música Urbana 2”.

Outras músicas marcaram o fim da minha adolescência e entrada na vida adulta. Algumas podem até ser mais importantes, mas nenhuma delas é tão bela quanto “Eu era um Lobisomem Juvenil”.

Renato Russo morreu quando eu tinha 18 anos e já conhecia “A Tempestade”, último disco em vida do líder da Legião. E eu que sempre gostei de ser minoria, fui pela contramão. Enquanto todos choravam com bela e triste “A Via Láctea”, eu me encantava com a beleza transcendental de Soul Parsifal.

Lançado em 1997, o disco póstumo “Uma Outra Estação”, tinha a música ideal para a despedida da minha adolescência e entrada na vida adulta.

Na casa dos 20 anos, continuei descobrindo a rica obra da Legião Urbana. Nesta época, já tinha todos os CDs. Comecei a trabalhar e ver o mundo do ponto de vista do capitalismo pseudo-primata que rege nossa vida econômica. Era questão de tempo até me identificar com “Fábrica”.

Essa mesma época casou com o auge da minha agenda musical. Como Renato Russo havia sido na acéfala Brasília do final dos anos 70 e início dos anos 80, eu era um seresteiro da culturalmente isolada Lençóis Paulista do final dos anos 1990. Além de “Pais e Filhos”, “Eduardo e Mônica” e “Tempo Perdido”, uma música não poderia faltar no palco.

Junto com o trabalho (ou melhor, com a necessidade do trabalho), veio a minha fase de maior desenvolvimento cultural, de visão social e, é claro, musical. O normal seria que eu abandonasse a obra da Legião Urbana, pela sua simplicidade técnica, e me apegasse a trabalhos mais complexos. Foi o que eu fiz, comecei a tocar MPB.

Mas em vez de deixar de lado a Legião, comecei a me atentar a músicas que não faziam parte da seleção de hits da banda. Muitas foram as músicas que marcaram essa época da minha vida, seja pelo seu valor político-social, seja pela sua beleza poético-estética. Pela ordem cronológica cito:

Baader-Meinhof Blues

http://http://www.youtube.com/watch?v=_EXzfYJXYv0

Baader-Meinhof era uma guerrilha de extrema esquerda que atuou na antiga Alemanha Ocidental entre 1970 e 1998 (cujo a bandeira, aliás, é muito parecida com a do PT). Era uma guerrilha urbana comunista. Na música, Russo não cita comunismo, capitalismo ou filosofias políticas. Mas sim, critica a alienação da população diante da crescente violência social. Acho que essa música era a sua guerrilha armada.

Angra dos Reis

Um belo conto de amor que tem como pano de fundo um cenário apocalíptico, uma crítica velada à exploração da energia nuclear no Brasil com um paralelo com a catástrofe em Chernobyl, em abril de 1986. Uma obra que só poderia ter sido concebida e formatada por alguém de afinada sensibilidade e apurado domínio da música e do idioma.

Depois do começo

Qualquer comentário que eu faça sobre esse saboroso reggae vai estragar a percepção dos leitores sobre a música. Vou dizer apenas que é uma homenagem de Renato Russo ao movimento non-sense.

1965 (Duas Tribos)

Muitos legionários se perguntam qual era a atividade tribal do Brasil em 1965 que poderia ter inspirado Renato Russo para dar o nome a uma das músicas que critica com mais força a desigualdade social e intelectual brasileira. O termo tribo, na verdade, é uma venenosa metáfora para uma referência do autor à formação das duas frentes políticas em um Brasil que, em breve, viria a ser arrasado socialmente por uma ditadura militar. Naquele ano foram fundados o MDB e a Arena. Pra mim, essa música marca o fim da fase de “adulto jovem” e o início da preocupação com o futuro.

Duas músicas marcam a próxima fase da minha vida, repleta de angústias e incertezas: uma delas é Vinte e Nove – idade que eu completei em 2007 – a outra é L’Âge D’or.

Abrir portas, fechar portas encerrar fazes da vida. São atitudes que sempre colocam novos horizontes em nossos olhos. E como dizem que o tempo e a idade suavizam as arestas e aplacam a fúria. Coincidência ou não, entre as músicas da Legião Urbana que são as minhas preferidas hoje são justamente as mais felizes.

Ah, e é claro, não posso encerrar esse post sem ressaltar a delícia das releituras e das reinvenções, duas maravilhas das quais só o ser humano é capaz. Sendo assim, para a posteridade, ou pelo menos para o resto do dia de hoje, deixo a música que, na minha opinião, é a mais perfeita, complexa e bela da obra de Renato Russo e uma das mais importantes canções do rock brasileiro: Índios.