Gregor the Geek em “O dilema de um nerd”


Dependendo da sua idade, caro leitor, você terá uma alcunha diferente para o protagonista desta história: CDF (quem se lembra dessa sigla?), nerd, geek… na verdade, o modelo do século 21 é bem parecido com o clássico, com algumas melhorias nos cortes de cabelo e aros dos óculos. Mas o conteúdo é basicamente o mesmo: faz parte da turma dos excluídos, não se dá bem com os valentões, não se dá bem com as garotas, prefere livros e filmes a ir a uma balada e nunca trocaria o videogame por uma partida de futebol, seja na TV, ao vivo ou mesmo se ele fosse o Camisa 10.
Esse é Gregor (ganhou esse nome porque o pai era fã de Franz Kafka) e ele sofreu durante seu período escolar como sofre qualquer nerd que se preze. Para os nerds, esse sofrimento é quase como um troféu, uma coletânea de épicas bravatas a serem contadas por menestréis do futuro. E sua passagem por essa cruel fase de adaptação à vida social chamada ‘escola’ teria sido como a de qualquer outro nerd, não fosse por um episódio específico, que aconteceu quando ele tinha 16.

 

– Olha lá a Samanta – comentou ele, ajeitando os óculos e cutucando um outro nerd que estava ao seu lado no corredor da escola, na porta da sala de aula (que era onde os nerds ficavam).

– É só para olhar mesmo, Gregor – sentenciou o amigo – porque jamais uma garota como essa estará ao nosso alcance.

 

Samanta era loira, alta, com o biótipo de líder de torcida. O timo de menina que namoraria o capitão do time de futebol da escola.

 

Gregor lembrou-se de Frodo e seu fiel jardineiro Sam, na épica e improvável viagem pela Terra Média narrada por John Ronald Roan Tolkien, enfrentando o frio, o calor, o cansaço e a fome, além de Orcs, aranhas gigantes e outras criaturas horrendas. E do esquisitinho que ficou com a Megan Fox na versão de Transformes para o cinema.

 

Encheu-se da coragem medieval digna de um cavalheiro da Coroa. Ajeitou sua camiseta do Lanterna Verde, revisou seu penteado, ajeitou a armação dos óculos, e foi falar com a garota.

 

– Oi Samanta, eu sou o Gregor – disse, aproximando-se dela.

– Oi – respondeu a menina, friamente e monossilábica.

– Eu estou na mesma sala que você na aula de fiolosofia…

 

Mas ela já não estava mais ouvindo. Parou em um outro grupo de estudantes e pôs-se a falar sobre alguma coisa que ela havia feito no final de semana. “Com o Frodo também não foi fácil”, pensou ele, não se deixando desanimar.

 

E foi nesse momento, num arroubo de vingança, que ele teve a ideia que mudaria drasticamente sua vida pelos próximos dois anos. “Isso não vai ficar assim”, pensou. Sacou o celular do bolso, tirou uma foto de Samanta, meio de frente, mas quase de perfil. E publicou.

 

Até então, a página na internet conhecida como Blog do Gregor (que tinha uma baratinha no cabeçalho pra fazer referência à Metamorfose) era um lugar onde se debatia lançamentos de games, filmes, livros e HQs, fomentando a eterna rivalidade entre os fãs da Marwel e os da D.C. Comics.

 

Ele havia acabado de criar uma coluna: ‘Garotas com quem eu ficaria, se elas quisessem’. Na primeira publicação, a foto de Samanta e a legenda. “Não gosto de garotas que vivem de aparência. Sou como um zumbi, gosto de cérebros! Samanta parece uma cheerleader, talvez até queira namorar os fortões do futebol. Mas ela tem seus filósofos preferidos, enquanto eles, os fortões, dormem na aula de filosofia. Ficaria com ela se ele quisesse, mesmo que ela fosse baixinha e pesasse 90 quilos”.

 

Vingança! Como era gostoso esse sabor no ego do inocente nerd. Gregor sabia que para os bullers, o elogio de um nerd era motivo de piada. Samanta seria satirizada por alguns dias, e era o preço que ela pagaria por tê-lo ignorado no corredor. Ah sim, muito provavelmente ela também passaria a odiá-lo. “Seria uma evolução, já que hoje ela nem sabe que eu existo”, constatou. O público da página não entendeu muito, alguns até pensaram estar carregando o blog errado.

 

A coluna encheu Gregor de coragem, até lhe rendeu inspiração para abordar outras garotas com quem gostaria de ficar. Sempre seguindo o padrão “inteligência é afrodisíaco”. A segunda personagem foi Liliane, outra das musas do colégio. “Liliane gosta de se vestir com o estigma de garota popular do colégio. Mas só quem a conhece de perto sabe o quanto ela sofre, o quanto ela não é assim. Triste mundo, onde se é rejeitado por pensar mais do que se maquiar!”.

 

A cada dia Gregor tentava abordar uma garota diferente e assim ganhava mais personagens para sua nova coluna. Depois de Liliane foi a Sara, depois a Manuela, depois a Valéria… “Em dez dias, serei o cara mais odiado da escola”, calculou.

 

O desfile de “beldades inteligentes” aumentou a frequência em sua página. Em menos de uma semana, sua audiência nas redes sociais aumentou vertiginosamente e seu número de seguidores se multiplicou por dez. E no décimo dia, justamente o prazo que ele se deu para ser “o nerd mais odiado”, qual não foi sua surpresa quando ele foi abordado por uma das garotas da lista. Era a Sara.

 

– Você acha mesmo tudo aquilo de mim? – perguntou.

– Claro que eu acho – respondeu.

– Pena que não são todos os caras que me enxergam assim – concluiu.

 

Pouco depois, no mesmo dia, outra garota foi conversar com ele, agradeceu-lhe as palavras com o beijinho no rosto. E instantes mais tarde, outra, e mais outra. Gregor achou engraçado mesmo quando uma das mais populares da escola – que não estava na sua lista – foi tirar satisfação por não estar na lista.

 

E, no décimo dia, Gregor era o garoto mais popular da escola. Nada mal para um nerd. Mas, por um bom tempo, carregou consigo o dilema: se ficasse com alguma garota da lista – agora elas o queriam! – a coluna perderia seu grande atrativo que era, justamente, o fato das meninas serem muita areia para o seu caminhãozinho.

 

“E agora?” – Gregor debatia consigo mesmo em uma inquietude transcendental – “Ser ou não ser: eis a questão”