Desvairada, Pauliceia


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A singela homenagem de um caipira à capital cultural do Brasil

 

Acho que todo adulto minimamente letrado e com mais de 30 anos tem algum personagem favorito da Turma da Mônica, alguém com quem a identificação era maior. Eu era o Chico Bento, “cuspido e escarrado”, como se diz por aqui no sertão paulista. Na minha infância (bem antes da internet) não via a hora em que chegassem as festas de fim de ano. Era o tempo do calendário que eu tinha para conviver com meus primos da cidade grande, que vinham para ensinar as brincadeiras, gírias e filosofias que já eram tendência em São Paulo, mas que ainda não eram nem notícias no interior.

No noticiário, algumas desgraças, o futebol, a política… de uma forma ou de outra, posso dizer que convivo desde cedo com São Paulo. Mas, até meus 20 anos, era apenas um lugar tumultuado, barulhento e lento, por onde eu passava única e exclusivamente quando eu ia ao litoral.

A vida passa, a infância fica e a adolescência acaba. Mas o desejo por liberdade só aumenta, e o caminho para a liberdade é o trabalho. Quando comecei a trabalhar, inevitavelmente, hora ou outra estava eu na capital Paulista.

Juro que procurei por um poema que escrevi no final de 2004, durante uma visita ao Salão do Automóvel. Não encontrei. Seria uma boa ilustração da visão caipirística sobre a Pauliceia Desvairada.

Mundo pequeno? Quem pode dizer que já saiu de Lençóis até São Paulo e encontrou amigos ou conhecidos por lá? Comigo aconteceu duas vezes. Em 1994, durante uma visita ao MASP (sim, burguesinhos dos anos 1990 também gostam de artes e cultura), acabei passando pelo shopping Eldorado onde encontrei, trabalhando no boliche, um lençoense radicado na capital.

Em 2009, no bar São Cristóvão, na Vila Madalena, onde eu chegava para mais uma noite no anonimato, encontrei mais três lençoenses, dois radicados por lá, um que vive por aqui mas que estava de passagem. Mas em tempos de tecnologia da comunicação esse encontro já não foi mais tão inédito, por mais que tenha sido surpreendente.

Me casei com uma paulistana e conheci a São Paulo que vai além do noticiário. No auge dos meus 35, nunca me senti tão envolvido com a Pauliceia como hoje. Entendo melhor que nunca a música do 365, brilhantemente regravada pelos Inocentes, quando ela diz “sem São Paulo o meu dono é a solidão”. Por mais caipira convicto e assumido que eu seja, hoje sei (e já admito isso) que minha relação com São Paulo pode ser muito mais próxima do que o dia do nosso aniversário.

Descobri que, por mais poético que seja, o cruzamento entre as avenidas Ipiranga e São João só foi bonito nos anos 1960. Hoje é o coração da Crackolândia.

Descobri o prazer de vagar pela Avenida Paulista em uma noite de sábado regada à garoa, de ser anônimo. Descobri o prazer do coloquial, o prazer de ver pessoas que aqui no sertão seriam chamadas de “estranhas” lá são normais, porque existem milhares iguais a elas. Descobri também que, não importa o quão diferente você seja, em São Paulo sempre tem milhares iguais a você.