Notas sobre o preconceito


Ou

 

Cada um cuida do seu

 

Sem título-1

 

 

Não há como negar, todo preconceito é imbecil. Mas, alguns são mais imbecis que outros. Minha filha mais velha, na época com sete anos, sofreu em uma escola em Bauru pelo simples fato de ter nascido em São Paulo. Hoje aos 12 anos, na “intelectualmente pujante” Lençóis Paulista, ela sofre preconceito por saber escrever e por gostar mais de livros e ouvir o teen rock internacional em vez de Michel Teló.

 

Eu, por exemplo, já convivi em um ambiente de trabalho em que ser originário de uma classe social diferente era motivo para ser discriminado. Convivi com três diretores que saíram da pobreza e vi ideias e argumentos (alguns bons, até) serem sumariamente desqualificados por ser nascido em berço burguês.

E a desqualificação era geral, acontecia tanto no decorrer do desenvolvimento dos projetos da empresa quanto em discussões filosóficas aleatórias. Era algo eu tipo assim:

 

Projetos específicos

Eu – Se fizer isso em vez disso vamos atrasar o prazo de entrega do projeto.

Eles – Você é um burguesinho criado à leite de cabra que quando precisou pegar no pesado, não aguentou. É isso que eu penso de você. E já faz tempo.

 

Verborragia filosófica geral

Eu – Não acho que essa medida vá refletir sensivelmente na economia, porque atende um público muito específico e que não tem histórico de mobilização…

Eles – É quem realmente precisa. Você nunca precisou, não sabe o quanto essa medida vai refletir…

 

E por aí vai. E se tem algo interessante sobre o preconceito é o fato de que, sempre que a vítima consegue se livrar do ambiente agressor, cedo ou tarde ela acaba achando graça ao lembrar das situações.

O mais engraçado é que eu nunca tomei leite de cabra, não sem nem que gosto tem. E por mais burguês que eu possa ser, caviar pra mim será sempre ovao de peixe.

 

Enfim.

 

O preconceito segue uma lei quase que matemática. Quanto mais antigo, mais enraizado, mais grave (e perigoso) ele é.

O anti-semitismo, sentimento que fundamentou o Nazismo e serviu como suporte ideológico para a ascensão de Hitler, resultou na Segunda Guerra Mundial, no extermínio de Judeus e em barbáries de toda sorte contra a população civil de diversos países.

O racismo, que deu origem à famosa Klu Klux Klan, nos Estados Unidos, ao Apartheid, na África do Sul e inúmeros outros movimentos sustentados por cabeças doentes que usavam seu mínimo poder de articulação para dar fundamento ao seu pensamento senil.

O racismo faz vítimas até hoje, em diversos pontos do planeta.

A intolerância religiosa é uma das formas mais estúpidas (e mortais) de preconceito. Isso porque o fato de alguém agredir alguém, por qualquer motivo que seja, vai contra o princípio fundamental de qualquer religião monoteísta, que é o amor ao próximo.

Ao longo da história da humanidade, religião sempre extrapolou as barreiras da política e da administração pública, gerando desde cenas ridículas – como no Brasil, a bancada religiosa orando antes de foder o povo na Câmara Federal – até guerras milenares, como o confronto entre judeus e palestinos.

A discriminação sexual também é um tipo perigoso de preconceito que, por sorte, vem sido combatido rigidez em vários países, inclusive no Brasil. O que não quer dizer, nem de longe, que a homofobia está perto de entrar para a lista das filosofias semi-mortas, como o Nazismo.

Ainda há doentes – de analfabetos a doutores, psicólogos, juristas e (é claro) deputados – que se esmeram para conter o avanço da discussão sobre a liberdade de orientação sexual e tentam atravancar, ao máximo possível, as ações e legislações que atacam a homofobia.

 

Não há como negar, a humanidade evolui muito na filosofia anti-preconceito, ao exaltar e eternizar nomes como Martin Luter King, Harvey Milk. Mas ainda é burra. Ou melhor, insuficientemente inteligente.

 

Tempos atrás “descurti” a fan page de uma tradicional casa noturna em Bauru quando eles anunciaram o show de uma dupla sertaneja. Fiz lá algum comentário preconceituoso e avisei que ia remover a página do meu feed de notícias. O administrador foi rápido e retrucou. “É preconceito isso, dê uma olhada na nossa programação”. Eu respondi “tem razão… é preconceito”.

E excluí a página.

Todos temos um pouco de preconceito. E não se iludam, somos capazes de defendê-lo com discursos tão fundamentalistas e intolerantes quanto os de Hitler ou Saddan.

O que eu chamo de ativismo anti-mediocridade, por exemplo, nada mais é do que uma forma preconceito que eu vou construir e pintar como positividade e ação em busca de um mundo melhor. E se alguém vier debater essa postura, vou morrer argumentando meu ativismo como a origem da salvação do planeta.

Da mesma forma que Hitler fazia com o Nazismo.