O Tabuleiro – Livro 1 – Recomeçando o Jogo


ou JOGOS DO APOCALIPSE

 

 

 

 

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Finalmente consegui terminar minha crônica sobre o fim do mundo. Ainda bem que o mundo não terminou no dia 21. Boa leitura, força sempre!

 

 

O Tabuleiro

 

Ou

 

Jogos do Apocalipse

 

 

Livro 1 – O Dilúvio

 

 

– Dilúvio? – exclamou Defero, encenando um tom sarcástico de indignação no autor da idéia.

– Talvez você tenha alguma ideia melhor – reclamou Dives – quem sabe um meteoro? – ironizou.

– A reconfiguração era estritamente necessária. Os parâmetros de desenvolvimento dos répteis inviabilizaria a plataforma de jogo em médio prazo – retrucou Defero.

– Lá no começo do jogo eu avisei que os répteis não eram as melhores peças – disse Tacita, que até então estava calado –, como também avisei que os símios não são muito melhores e que nada garantia que eles seriam menos violentos em seu formato sapiens.

– Não adianta Tacita – interveio O Construtor – para adotarmos os caninos como raça padrão, precisaríamos também dos felinos. Não há jogo sem equilíbrio. E todos nós sabemos que a majoração dos felinos pode não ser uma boa ideia.

– Sem mencionar que, no acordo que fechamos para a redução do número de peças previa a não substituição da raça dominante.

 

Por poucos momentos, o silêncio tomou conta da mesa de debates. Até que um deles resolveu voltar ao assunto.

 

– O dilúvio é a melhor alternativa – insistiu Dives, fitando Defero com um olhos desafiadores – temos a necessidade de reduzir o número de peças para garantir um desenvolvimento sustentável da plataforma de jogo em médio prazo.

 

O silêncio retornou. O Construtor olhou para Defero, como se cobrasse uma resposta.

 

– Concordo – ele respondeu, contrariado.

 

Agora todos olhavam para Tacito.

– Concordo. Com uma condição: continuamos com as mesmas peças, no mesmo nível de evolução.

 

O Construtor reiniciou a rodada de deliberações e olhou para Tácito, que balançou a cabeça positivamente.

 

– Concordo – e explicou – a evolução biológica das peças está em um nível bastante avançado, enquanto que a evolução da capacidade intelectual, bem perto do básico. Com menor número de peças, poderemos organizar melhor a plataforma de jogo.

 

O próximo a votar foi Dives.

– Concordo – respondeu – com a manutenção do nível de evolução e dos recursos naturais da plataforma de jogo, ganharíamos um bom tempo para a reconfiguração da jogabilidade.

 

Só faltava Defero.

– Ainda acho que um desastre dessas proporções é desnecessário – discursou -, além disso, já imaginaram as explicações que as peças vão encontrar sobre isso? Vamos criar um messianismo fanático que não é interessante, e que pode acabar segregando as peças em ódio e intolerância em muito pouco tempo.

 

– Negativo – retrucou Dives – a redução do número de peças vai, automaticamente, reduzir a diversidade cultural. Reduzindo as diferenças, reduz-se os conflitos.

 

– Já basta – O Construtor encerrou o assunto – Defero é voto vencido, a deliberação terminou. Vamos retomar o jogo. Como autor da variante vencedora, Dives determina o procedimento de reformatação do tabuleiro.

– Já tenho um projeto – começou Dives – e consiste em implantar em uma das peças a ideia de que um dilúvio virá para destruir a humanidade. Será tomado como insano pelas outras peças, que perecerão sob a água. A ideia implantada nesta peça fará com que ele construa uma grande embarcação, na qual vai preservar a sua espécie e as espécies inferiores.

– Implantar? Embarcação? – Defero questionava – vocês perderam o juízo? E como dizem que esta passagem não vai criar um messianismo fervoroso? O que vai dizer às peças? Que O Construtor se arrependeu de tê-las criado?

 

A sala foi tomada por um silêncio reflexivo. Até que Dives concluiu.

– Sabe Defero, e não é que você me deu uma boa ideia?

 

 Gênesis 6:5 Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração;
Gênesis 6:6 então, se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração.
Gênesis 6:7 Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito.
Gênesis 6:8 Porém Noé achou graça diante do SENHOR.
Gênesis 6:9 Eis a história de Noé. Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus.
Gênesis 6:10 Gerou três filhos: Sem, Cam e Jafé.
Gênesis 6:11 A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência.
Gênesis 6:12 Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho na terra.
Gênesis 6:13 Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra.
Gênesis 6:14 Faze uma arca de tábuas de cipreste; nela farás compartimentos e a calafetarás com betume por dentro e por fora.
Gênesis 6:15 Deste modo a farás: de trezentos côvados será o comprimento; de cinqüenta, a largura; e a altura, de trinta.
Gênesis 6:16 Farás ao seu redor uma abertura de um côvado de altura; a porta da arca colocarás lateralmente; farás pavimentos na arca: um em baixo, um segundo e um terceiro.
Gênesis 6:17 Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá.
Gênesis 6:18 Contigo, porém, estabelecerei a minha aliança; entrarás na arca, tu e teus filhos, e tua mulher, e as mulheres de teus filhos.
Gênesis 6:19 De tudo o que vive, de toda carne, dois de cada espécie, macho e fêmea, farás entrar na arca, para os conservares vivos contigo.
Gênesis 6:20 Das aves segundo as suas espécies, do gado segundo as suas espécies, de todo réptil da terra segundo as suas espécies, dois de cada espécie virão a ti, para os conservares em vida.
Gênesis 6:21 Leva contigo de tudo o que se come, ajunta-o contigo; ser-te-á para alimento, a ti e a eles.
Gênesis 6:22 Assim fez Noé, consoante a tudo o que Deus lhe ordenara.