artigo de amanhã no jornal O ECO


mais uma vez os internautas lendo minha produção em primeira mão…

 

 

 

O encerramento de um ciclo

 

Cristiano Guirado é jornalista

Há mais ou menos dez anos tomei uma decisão que me trouxe muitos momentos tensos, difíceis, mas que em geral, me deu bastante alegria: torcer contra a Seleção Brasileira. Em 1994, eu ainda não sabia, mas presenciaria o sucesso do pior time que já vi vestindo uma amarelinha ser campeão do mundo (São Romário).

Em 1998, com um discernimento maior da realidade, vi Zagalo, que não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, chegar à final da Copa do Mundo contra (e perder) contra a França, os donos da casa. Depois de uma série de controvérsias, polêmicas e politicagem barata, vi caírem Vanderlei Luxemburgo e toda sua empáfia e Emerson Leão, junto com sua vaidade e o “futebol bailarino” que ele dizia propagar.

Aos trancos e barrancos – e dez meses antes da Copa de 2002 – Felipão conduziu a equipe pela reta final das Eliminatórias, tirando a equipe de uma situação complicada e a colocando na zona de classificação para a competição. Já na disputa do mais importante torneio esportivo do mundo, vi o que eu imaginava ser possível (e que sabia que era possível pela seleção de Telê Santana, em 1982): uma seleção jogando à altura da envergadura do futebol brasileiro. Uma seleção tão superior em qualidade de futebol que a temida Alemanha, na final do torneio, não viu a cor da bola e praticamente não levou perigo ao gol de Marcos.

Por que Felipão conseguiu o que ninguém havia conseguido desde Telê? E por que ninguém depois dele conseguiu? Arrisco a dizer que ambos trabalharam no óbvio: montar uma equipe de futebol. Não estavam preocupados em vender a marca, em marcar amistosos contra equipes inexpressivas analisando apenas o potencial econômico do evento.

Enfim, durante os últimos dez anos a seleção foi um produto de marketing, não um time de futebol. E eu, torcendo contra a Seleção quando Carlos Alberto Parreira retomou o cargo, no final de 2002, ri horrores com a derrota logo no primeiro jogo, contra a seleção de Portugal, dirigida por Felipão.

E ri bastante nestes dez anos, principalmente quando Ricardo Gomes, com a melhor safra de talentos do futebol brasileiro dos últimos trinta anos, conseguiu ficar de fora das Olimpíadas de 2004. E quando, dois anos mais tarde, com uma equipe potencialmente mais forte do que qualquer outra, Parreira conseguiu ser eliminado nas quartas de final da Copa do Mundo. Ri tanto que as trapalhadas do Dunga em 2010 e a derrota para o México nas Olímpiadas de 2012 não foram lá tão engraçadas.

Agora chega de rir. Agora é hora de voltar a sofrer e acreditar e torcer por uma seleção que vai voltar seu foco para o futebol. Posso afirmar isso porque conheço o Felipão não é de hoje. Para trabalhar com ele tem que ser do jeito dele, ou “tchau”.

Felipão vai melhorar o nível do futebol da Seleção? Duvido. O futebol brasileiro passa por uma crise de identidade sem precedentes e, óbvio, isso reflete na qualidade de seu combinado. Mas se não jogar melhor, pelo menos vamos voltar a ver na Seleção algo que faltava há muito tempo (há pouco mais de dez anos, para ser exato): seriedade e compromisso.