Mitologia Chinesa: Hoje é aniversário da Lua!


 

 

Hoje é aniversário da Lua! Decretado pelo imperador Ming Wong. Vamos dizer parabéns à companheira de tantos devaneios, com um conto da mitologia chinesa. 

 

 

Chang E, a desterrada beleza da Lua

 

Diz a lenda que, em todo dia 15 de cada mês do calendário lunar, uma Lua límpida e brilhante paira nas alturas da noite transparente, de onde contempla a Terra com um sorriso. Nessa Lua redonda e luminosa mora a deusa Chang E, a mulher do herói Hou Yi, o arqueiro que derrotou nove sóis e, por causa dele, estava condenada àquela vida solitária.

Por ordem do Imperador Celestial, Hou Yi tinha disparado nove setas contra os nove Sois e castigado o demônio das águas, ganhando a estima e respeito de todos. Incansável viajante, percorreu inúmeras regiões do planeta.

Um dia depois de uma longa caçada, Hou Yi atravessava sedento um riacho no caminho para casa, quando se deparou com uma jovem sorvendo a água da corrente com um bambu oco. Aproximou-se e perguntou-lhe se também podia utilizar o bambu para beber. Vendo as flechas brancas e o arco vermelho que Hou Yi levava às costas, esta se apercebeu de que o vigoroso e elegante homem devia ser o herói e, para lhe mostrar a sua gratidão pelos feitos operados por ele relativos ao bem-estar da humanidade, passou-lhe imediatamente o instrumento e colheu um ramo de flores para lhe oferecer em sinal de admiração. Em retribuição, Hou Yi escolheu uma das mais preciosas peles da raposa prateada que tinha acabado de caçar e a deu para a jovem.

A jovem era Chang E, que os seus pais tinham sido vitimas dos animais selvagens da floresta e que vivia agora solitária, vestindo uma blusa e uma saia branca em expressão do seu imenso pesar pela morte da família. Hou Yi tentou consolá-la o melhor que lhe foi possível e estes sentimentos altruístas despertaram o amor da jovem pelo herói. Pouco tempo depois eles se casaram.

Hou Yi e Chang E tornaram-se inseparáveis, viajando e caçando sempre na companhia um do outro de tal. Quando recebeu do Imperador Celestial a notícia de que teria que voltar aos céus, o herói não deu ouvidos. Sua mulher chorou lagrimas de sangue ao saber que teria de se apartar de quem muito amava.

Quando o Imperador Celestial foi informado de que Hou Yi tinha se casado com uma mortal e estabelecido uma família no mundo, ficou furioso e demitiu-o, fazendo com que o herói não pudesse mais subir ao céu. Hou Yi não se arrependeu. Achava a vida na terra mais feliz do que no céu.

Mas os seres humanos tem uma vida limitada.

 

Um dia, Hou Yi disse.

– Quando eu vivia no céu ouvi dizer que na cordilheira Kunlun, no longínquo oeste, a mãe-imperatriz tem uma parceira que cura tudo, mesmo a morte. Acho que o melhor será eu partir para essas regiões a procura de tal medicamento, para que possamos viver eternamente.

Chang E gostou da notícia. Preparou cuidadosamente a bagagem pediu-lhe insistentemente que prestasse bem atenção ao caminho e que voltasse ao lar o mais cedo possível. Era a primeira vez que se separavam um do outro. Com a sua aljava repleta de flechas e o arco as costas, Hou Yi montou um veloz corcel e partiu galopando rumo ao oeste.

A região onde morava a mãe-imperatriz no longínquo oeste era de difícil acesso. Era preciso atravessar altas e escarpadas montanhas, florestas a perder de vista e desertos despovoados sem fim onde, por vezes, se levantavam furiosos vendavais. Mas, para além disso, perto da montanha Kunlunm encontravam-se duas barreiras que eram os obstáculos mais difíceis da viagem: o rio das Águas Afogadoras e a montanha das Chamas Ardentes.

A água deste rio era tão leve e vaporosa que tornava impossível a navegação. A montanha encontrava-se constantemente envolta por um mar de fogo que regurgitava altas labaredas, envoltas por um denso fumo, que atingiam dezenas de metros de altura e ameaçavam queimar todos quantos se aproximavam.

Quando Hou Yi chegou às margens do rio das Águas Afogadoras, lembrou-se de ter visto em umas serranias uma arvore rara, cuja madeira era dura como aço, leve como uma pena. Ele pensou que se utilizasse a madeira desta árvore invulgar poderia certamente atravessar o rio e assim. Montou de novo o seu corcel e cavalgou ao sul, onde anteriormente tinha visto a tal arvore e quando a encontrou, cortou-lhe o tronco e fez uma canoa.

Quando regressou ao rio das Águas Afogadoras empurrou a embarcação sobre as águas e, tal como esperava, esta nem tocou a sua superfície. Impelida pela suave brisa, a canoa começou a deslizar sobre a água rumo à margem oposta. A embarcação transportou o herói mais o seu cavalo para a outra margem em um abrir e fechar de olhos.

Pouco depois de ter passado pelo rio das Águas Afogadoras, Hou Yi chegou aos arredores da montanha das Chamas Ardentes. Não teve medo, pois sabia que estava bem preparado para enfrentar suas labaredas. Outrora o herói havia enfrentado e vencido a besta Xiongshui, capaz de cuspir fogo e vomitar água, e guardou a pele do animal, tão espessa que nem o fogo nem a água a podia atravessar. O herói trazia-a sempre consigo e fazia com ela duas armaduras impregnáveis: uma para si próprio e outra para o seu corcel.

Depois ambos estarem prontos, Hou Yi montou seu cavalo e lançou-se na recinto escaldante montanha das Chamas Ardentes. No seio do negro fumo, o herói não tardou a sentir bastante dificuldade em respirar. Mas seu corcel era divino, capaz de correr mil quilômetros por dia. Após a perigosa travessia, Hou Yi apeou-se para verificar se o seu cavalo tinha saído ileso, observando que nada lhe tinha acontecido, além da cauda chamuscada.

Hou Yi conseguiu vencer as duas maiores dificuldades da sua viagem em busca do remédio da imortalidade, acabando por, finalmente, chegar ao sopé da cordilheira Kunlun onde morava a mãe-imperatriz do oeste. Ela vivia nos píncaros da montanha de Jade Límpido, no centro da cordilheira Kunlun.

Quando Hou Yi chegou às portas do palácio o mensageiro imperial, a ave Qing Niao, já tinha informado a imperatriz da sua chegada. Esta recebeu-o com muita cortesia e gentileza. Conhecendo a finalidade da sua vinda, a mãe-imperatriz do oeste, querendo satisfazer-lhe os seus ensejos com a maior das magnanimidades, ordenou a Ave de Três Pernas, guardiã da panaceia, – que trouxesse no bico a preciosa cabala com o miraculoso medicamento, preparado a base dos pêssegos da arvore da Imortalidade, que só dava flores e frutos a cada três mil anos.

– Toma, isto e tudo o que me resta – disse a imperatriz, passando-lhe a cabala. – Embora seja pouco, e o suficiente para ambos. Se ingerir a metade cada um, vocês viverão eternamente, mas, cuidado, se um de vocês tomar tudo, se transformará em um ser divino e voará para o céu sem jamais poder voltar a terra.

– Foi para que ambos possamos viver para sempre juntos que eu resolvi buscar o elixir. A mim não interessa voltar a ser divino – disse o herói fazendo, em agradecimento da magnânima dádiva, uma profunda reverencia.

No momento da despedida de Hou Yi, a mãe-imperatriz do oeste mandou a Ave de Três Pernas buscar uma porção da tenra e perfumada erva Yao, que crescia nas margens do Lago de jade, entregando-a depois ao herói, para que este a pudesse ofertar a Chang E.

Tratava-se de uma erva tão preciosa quão misteriosa que, conforme se dizia, era originaria da metamorfose de Yao Ji, uma das filhas do deus do Sol, Yandi. Era uma bonita e delicada jovem que aos 17 anos tinha-se apaixonado por Zhi Songzi, um subordinado do deus da Agricultura. Ao principio, estavam ambos muito apaixonados um pelo outro, mas, depois o rapaz partiu para o sul.

Yao Ji, ansiosa por encontrá-lo, resolveu procurar por toda parte. Até que, chegada ao centro da cordilheira Kunlun descobriu que seu noivo tinha casado com uma deusa. Ali morreu de dor e de tristeza.

Segundo constava, Yao Ji, a bela e desventurada jovem tinha-se então transformado na preciosa erva Yao que crescia nas margens do Lago de Jade. Em breve a erva tinha florescido espalhando-se rapidamente e proliferado não só ao longo das margens do rio, mas também em todas as encostas da montanha central.

Dizia-se que, independentemente das estações do ano, as folhas estavam sempre cobertas de um fresquíssimo orvalho, que não era senão as lagrimas inesgotáveis da jovem. A erva Yao tinha uma característica especial. Qualquer que fosse a mulher que cheirasse o seu perfume, se tornaria carinhosa de trato e extremamente bela de corpo e feições.

Agora, em posse do elixir da longevidade, Hou Yi retomou rapidamente o caminho de regresso. Já se tinham passado mais de seis meses que ele tinha deixado o lar. Ambos ficaram felicíssimos de estarem de novo juntos e Hou Yi contou a Chang E todas as peripécias da sua viagem, dando-lhe no fim o medicamento.

– Aqui esta o elixir que eu adquiri depois de tantos esforços. A mãe-imperatriz do oeste disse que se ambos tomarmos cada um, metade poderemos viver eternamente, mas, se uma pessoa o tomasse por inteiro subiria ao céu para nunca mais voltar. Por favor, guarde bem o medicamento, ate escolhermos um dia auspicioso para ambos o tomarmos.

Rejubilante, Chang E recebeu o elixir da imortalidade das mãos de Hou Yi e guardou-o cuidadosamente. Em seguida, o herói entregou-lhe a erva Yao e disse-lhe:

– Isto e uma erva preciosa que a mãe-imperatriz do oeste mandou especialmente colher para te oferecer.

Cheia de contentamento Chang E admirou-a detalhadamente, exclamando depois de surpresa:

– Que extraordinária erva! Nunca vi nada de tão belo!

E ao mesmo tempo em que falou, aproximou inadvertidamente a erva do seu nariz inspirando o seu doce perfume. De fato, o cheiro da erva provou o seu efeito, porque ela imediatamente se tornou ainda mais bela que nunca.

Sendo um excelente arqueiro, a fama de Hou Yi tinha-se espalhado até os quatro cantos do mundo. Muitos jovens vinham procurá-lo para aprender. Muitos dos seu alunos, vieram a tornar-se famosos arqueiros.

Feng Meng, considerado o melhor de todos os discípulos de Hou Yi, era, no entanto, orgulhoso, invejoso e perverso. Todos os dias desejava que seu mestre morresse, pois cobiçava ser considerado o mais exímio arqueiro do mundo. Contudo, ele sabia que o mestre tinha obtido da mãe-imperatriz do oeste um elixir da imortalidade que tomava irrealizável o seu sonho. No seu coração ardia constantemente o fogo da inveja.

Um dia, aproveitando-se da ocasião do herói ter ido à caça, entrou furtivamente na sua casa e apontando uma flecha ao peito de Chang E disse-lhe perversamente:

– Dá-me depressa o elixir da imortalidade! Depressa! Depressa! Depressa! Caso contrario, acabo-te com a vida de um só golpe!

Surpreendida pelo inesperado acontecimento ela perguntou-lhe:

– Mas você não é um amigo e discípulo de Hou Yi? Por que razão…

– Há muito tempo não o considero como meu mestre. Enquanto ele estiver vivo eu nunca poderei gozar da fama de ser o melhor do mundo. Por isso odeio-o e lhe desejo uma morte breve – disse Feng Meng rangendo os dentes.

Chang E permaneceu calada e chorou de raiva.

– Dá-me o elixir, depressa! – berrou o discípulo brandindo o ameaçador arco e flecha contra ela. Entretanto, Chang E pensava que nunca poderia entregar a esta ignóbil criatura a panaceia que Hou Yi tinha adquirido após ter desafiado tantas dificuldades e perigos. Vendo-se ameaçada tirou o medicamento da sua algibeira, mas, quando o patife estendeu a mão com a intenção de se apoderar da preciosa cabala, ela meteu-a na boca e engoliu o seu conteúdo o mais rapidamente que foi possível e correu em direção à porta.

Mal Chang E tinha passado o limiar da porta já, começou a sentir-se tão leve que diáfanas nuvens a impeliam para o céu. Gradualmente Chang E elevou-se airosamente para as alturas. Mas para onde iria ela? Pensando que Hou Yi ficaria agora, para sempre um prisioneiro do mundo e, repleta saudades dele, resolveu-se a ficar na Lua, por ser local mais vizinho da terra. A sua chegada ao palácio de Guanghan, na Lua, fez rebrilhar este astro ainda mais suave e claramente.

De regresso da casa, Hou Yi ficou tão triste ao saber do que tinha acontecido que, com a cabeça levantada e os olhos imóveis, não parava de fitar a longínqua Lua, pensando na sua amada que nunca mais poderia ver, enquanto que abundantes lagrimas lhe escorriam pelas faces sem cessar.

Ao refletir sobre o ingrato e desprezível ato de Feng Meng, o herói sentiu-se invadido por um misto de indignação e raiva e, pegando no seu arco e flechas, saiu de casa a sua procura.

Feng Meng tinha-se escondido no bosque sobranceiro à caça do seu mestre e ali lhe preparava uma emboscada. Quando Hou Yi ao sair da casa, passou por aquelas paragens, o malandro saiu do seu esconderijo e com um grosso cacete, deu uma forte pancada na nuca do seu mestre.

A morte de Hou Yi despertou o pesar, o pranto e a pena de todos os homens. Quando os outros discípulos souberam do crime de Feng Meng, perseguiram-no, cercaram-no e prenderam-no, depois amarraram-no a uma grande arvore e mataram-no, cada um atravessando-o com uma flecha. Ele não veio a ser considerado o arqueiro de primeira classe que tanto ansiava ser.

Após a morte de Hou Yi, em comemoração dos seus méritos em favor do povo, todas as famílias penduraram a sua imagem na sala principal de suas casas e passaram a venerá-lo como um deus tutelar e a invocar o seu nome como modelo de virtude e altruísmo. Chang E continuou a habitar, tal como uma fada celestial, o luxuoso palácio de Guanghan feito de jade e esmeraldas, mas afastada da terra e da companhia de Hou Yi, a sua eternidade tornou-se um mar de amargura, solidão e sofrimento.