Raul e a trilha sonora da minha vida


 

 

“O rock era como uma chave que abriria minhas portas que viviam fechadas. Usava camisa vermelha, gola virada para cima. As mães não deixavam as filhinhas chegarem perto de mim porque eu era torto como o James Dean. Olhava de lado, com jeito de durão. Eu era o próprio rock. Tinha assumido uma maneira de vestir, falar e agir que ninguém conhecia. Claro que eu não tinha consciência da mudança social que o rock implicava. Eu achava que os jovens iam dominar o mundo.”

Raul Seixas

Hoje o Brasil completa 23 anos sem Raul Seixas. Quando figuras importantes deixam uma lacuna de inspiração, cada minuto de sua falta é uma verdadeira eternidade.

Não me lembro com exatidão quando eu encontrei Raul Seixas. Mas desconfio que tenha sido em 1984 ou 1985, quando ele apareceu no especial “Verde que te quero ver”, da Rede Globo, cantando o Carimbador Maluco.

 

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Mais tarde eu fui descobrir que essa era da listra (longa) de músicas do cara que deram balão na censura.

Alguns anos depois conheci Gita, talvez o hit mais viral daquele tempo, em que quase não se falava em virais.

 

 

Entre 1990 e 1991, comecei a estudar música. Cowboy fora da Lei, do disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! (de 1987), foi uma das primeiras do curso.

E parece que foi sina. Em pouco tempo eu já tocava Medo da Chuva, Metamorfose Ambulante, O dia em que a Terra Parou e Sociedade Alternativa.

 

Em 1992 entrei para uma banda. O companheiro Evaldo, caçula de uma família de músicos, me mostrou a beleza do Lado B das obras de Raul Seixas. Conheci e comecei a tocar Ave Maria da Rua, Meu Amigo Pedro, Capim Guiné e o Homem.

 

 

 

 

Neste mesmo 1992, eu frequentava bastante o salão do Ézio, cabeleireiro. Ele era vocalista da extinta banda de rock Decibéis. O salão era uma espécie de ponto de encontro dos músicos da cidade. A banda tocava Guns, Engenheiros, Barão e Dire Straith, da parte que me lembro.

Na época, além do Ézio, a banda tinha o Pedrinho na guitarra, Marcos Maganha, no baixo, Evandro Cantizani na bateria e Gato nos teclados. O Pedrinho estudava comigo no Esperança de Oliveira, mesma classe e fazíamos uns duetos no violão. Foi como conheci essa turma.

Um dia o Gato tocou uma música no violão. E depois de ouvir aquela música, parece que minha percepção sobre música havia mudado. Logo que terminou, perguntei de quem era, que música era.

Era Ouro de Tolo.

 

 

 

Em alguma das Facilpas da vida (não me lembro se foi 1992 mesmo ou 1993) comprei uma fita K7 pirata. Lembro bem dessa fita porque era uma dessas coletâneas sem lógica, feita a olho, mas era a que tinha a maior quantidade de músicas do Raul que não conhecia. E como já tinha percebido que a obra do cara me soava interessante, resolvi comprar.

Esse K7 viria a ser uma das mais importantes aquisições do meu acervo cultural. Nele vieram Super Heróis, Eu também vou reclamar, A Maçã, Seção das 10 e Novo Aeon.

 

 

Ao contrário de hoje, a Lençóis Paulista dos anos 1990 era um lugar seguro para jovens precoces com um mínimo de juízo. Quanto tinha 15 anos eu frequentava a Hurricane, balada top da cidade na época. Ficava na 15 de Janeiro, na cara da capela de São Benedito, onde hoje, se não me engano, é uma loja de motocicletas.

Foi lá que me meti, pela primeira vez, a tocar para um público que tinha saído de casa para ouvir músicas. A boate (chamávamos de boate apesar de não ser tecnicamente uma) tinha uma pista pra música eletrônica e de vez em nunca uma banda, e no andar superior, um palco quadradinho pra três pessoas no máximo.

Ivan, Amaral e Da Luz era o trio da vez do violão e voz. Eles tocavam sempre lá. E o Ivan e o Amaral não sabiam músicas do Raul. Foi lá que ouvi, pela primeira vez, o grito “Toca Raul”.

Lembro como se fosse ontem da primeira vez que subi tocar. Foi junto com Thiago Ramos, tocamos Trem das 7. Nesse mesmo dia, um grupo de pessoas queria ouvir Novo Aeon. “Música das melhores”, pensei. Cheguei em casa e no dia seguinte já tirei a música no violão. Mas nunca mais pediram de novo.

 

 

A chegada do século 21 trouxe uma certa metamorfose no meu perfil musical. E outras músicas do Raul entraram para o meu repertório. Dessa época eu me lembro bem de Como vovô já dizia, Loteria da Babilônia e As Minas do Rei Salomão.

Também nesta época descobri um dos mais fantásticos balões na ditadura de que se tem notícia: Metro Linha 743, que falava sobre comedores de cabeça de gente que pensa.

 

 

 

 

Por fim, o tempo foi me deixando mais brando, menos rude e rebelde. E aprendi a admirar outro lado da obra de Raul Seixas. Músicas como Coisas do Coração, Cantiga de Ninar e a recém descoberta Gospel, completam o rol da trilha sonora da minha, se ela fosse composta por Raul Seixas.