Raul Torres, o cordelista caipíra


 

Raul Torres, Florêncio e João Pacífico

 

Imperdível, na edição de sábado do jornal O ECO, a entrevista feita (pelo companheiro Vitor Godinho, escrita por mim) com o escritor cordelista Marcos Haurélio, baiano.

Ele cita a diástole do cordel pelos quatro cantos do Brasil e elenca o botucatuense Raul Torres (na foto) como uma espécie de cordelista do estado de São Paulo… segue abaixo a resposta específica.

O ECO – O que dá ao cordel esse ar nordestino?

Haurélio – É uma poesia que dialoga com a tradição oral, mas é escrita. No nordeste há este ciclo que tem no Brasil todo, mas lá é muito mais forte. Nosso rio São Francisco já se chamou Rio dos Currais, para ser ter uma ideia da importância da expansão da pecuária pelo interior nordestino. No Nordeste o poeta de cordel achou o tipo de herói, de guerreiro mítico, que acabava encarnando o ideal que vem desde a idade média, que os portugueses acabaram trazendo, que é o cangaceiro, e o lampião encarna melhor do que ninguém essa figura. Nos Estados Unidos haviam umas brochurinhas, que chamaram de “ballads”, com Jesse James, Billy The Kid, Pat Garret, Wyatt Earp… os heróis foras da lei. Na Inglaterra cantou-se as fançanhas do Hobin Hood, que ninguém sabe se existiu. No Nordeste tinham esse “herói”, que acabou encarnando o ideal de muita gente e talvez isso tenha contribuído para que lá se fixasse com mais força e se difundisse para todo o país. Em são Paulo mesmo há uma manifestação que dialoga muito de perto com o cordel, que é a música sertaneja de Raul Torres, de Tonico, de Tedy Vieira, que pouco ou nada tem a ver com essa onda, que eu particularmente abomino. Essa música sertaneja conta também histórias, conta sagas de forma resumida, porque tem que gravar em poucos minutos, em um disco. Mas a tradição de contar história é do pais todo.