15 anos sem Betinho: uma verdadeira eternidade


 

 

O irmão do Henfil não volta mais

 

Maravilhosa música de João Bosco e Adir Blanc, “O Bêbado e a Equilibrista”, eternizada na brilhante voz de Elis Regina, é um hino biográfico da ditadura brasileira.

 

 

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos…

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!…

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil…

Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança…

Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar…

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar…

 

 

Morto em 9 de agosto de 1997 (lá se vão 15 anos), dessa vez o irmão do Henfil não volta mais.

 

Herbert Jose de Sousa , o Betinho, herdou da mãe a hemofilia. Assim como seus dois irmãos, por igual iluminados, Henfil, cartunista, e Chico Mário, musico.

“Eu nasci para o desastre, porém com sorte” , costumava dizer.

A formação humana de Betinho foi uma compilação do desastre. Foi criado em uma penitenciária e uma funerária, lugares onde o pai trabalhava, e padres dominicanos. Envolvido desde cedo, integrou a Juventude Estudantil Católica, a Juventude Universitária Católica e em 1962, fundou a Ação Popular (movimento político que pregava o socialismo humanista).

Formado em sociologia, foi assessor do Ministério da Educação durante o governo de João Goulart, enquanto ele durou. Com o AI-5, exilou-se no Chile, de onde teve que fugir por causa de outra ditadura, a de Pinochet. Ainda morou no Canadá e no México.

Anistiado em 1979, voltou ao Brasil. Começava a parte mais importante de sua militância política. Foi um dos fundadores do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, e passou a se dedicar à luta pela reforma agrária. Betinho também integrou as forças que resultaram no impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.

Mas foi imortalizado por outro projeto, a Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida.

 

Hemofílico, Betinho precisava de constantes transfusões de sangue. Em uma época de total escuridão e ignorância da máquina pública brasileira, foi contaminado – assim como seus dois irmãos – pelo HIV. Henfil e Chico Mário morreram em consequência da Aids em 1988.

Betinho foi ativo até o final da vida, ressaltando sua condição de soropositivo e dizendo “comemorar a vida todas as manhãs”.

 

Entre tantas frases que ele deixou para a posteridade, minha preferida refere-se ao então presidente Fernando Henrique Cardoso:

“O Brasil tem sociólogos bons e sociólogos medíocres. Uns tornam-se professores, outros, presidentes da República”.