direto do túnel do tempo


 

Dia 12 de julho de 2003, há exatos nove anos … centenário do escritor Orígenes Lessa… esse que vos escreve vencia o finado concurso Jovens Talentos da Literatura Lençoense com o poema “O Feijão sem Sonho”.

 

Na foto, eu recebendo o prêmio das mãos da então diretora de Cultura (hoje prefeita), Izabel Cristina Campanari Lorenzetti…

 

abaixo, a obra vencedora na ocasião

 

 

O feijão e o sonho

 

Não tenho dinheiro para o feijão

Toma aqui um poema

Não tenho o molho, nem o macarrão,

Leve então, um pedaço de mim, uma obra de arte

 

– Mas a arte não é moeda forte

Não tem sequer cotação frente ao dólar

Se vale dela quem espera mais da morte

Quantos grãos vale um mote?

 

Não espere morrer para crer

Que a cultura não é capricho

Que arte difere o homem

Da pedra, do mato, do bicho

 

A arte não enche barriga

O sonho não compra o feijão

O verso forte não salga o macarrão

E a literatura não compra o carvão

 

Bem vindo ao mundo dos vivos

As letras só valem nos crivos

Os papéis só valem no dólar

Jesus disse: dê a César o que é de César

Compramos o feijão, vendemos a massa

Não sonhamos acordados, a vida passa

 

Você lê a Bíblia mas não faz idéia

Do que Cristo diz, talvez se fizesse

Não fosse tão infeliz

Você é o feijão sem sonho

O mundo tristonho,

De bolso cheio e alma vazia

Como a tarde de sol vadia

Sem nada pra sentir, nada pra pensar

Você é a árvore, o manequim

O céu sem querubins, a Geni sem zepelin

 

Deixemos o mundo girar

E constatamos então

Qual dos dois será

Condenado á fome

 

Vejamos então qual dos dois

É condenado ao esquecimento

E qual faz a História

De qual se lembra o nome

 

 

Cristiano Guirado