Conto de uma guerra perdida


São Paulo, 8 de setembro de 2005, 4h15

 

O barulho que dominava o ambiente era o grito histérico de impressoras matriciais. De tempos em tempos, por um fiozinho de intervalo, coincidia de todas as matriciais pararem para respirar ao mesmo tempo. E o silêncio era ensurdecedor. Até que uma retomava os gritos. E depois outra, como se fosse a segunda voz, depois mais uma, e outra, até que todas voltavam a gritar ao mesmo tempo compondo aquele coral neurótico, que era a música que pairava pelo ambiente.

As matriciais não eram nada. O problema era toda aquela gente. Gente entrando e gente saindo. Muita gente entrando e saindo. Gritos, uma confusão aqui, um bêbado algemado ali. Um policial passou com quatro travestis seminus acusados de vender cocaína a adolescentes. Outro tinha prendido um suspeito de homicídio.

Procurou. Dissecou o local com os olhos, até que achou a porta certa para bater. Venceu a passos largos o salão, como se bailasse entre as escrivaninhas. Até que foi detido por um policial à paisana que estava sentado sobre a mesa.

Num movimento quase automático, suas duas mãos foram levadas às costas e sua cara empurrada com força contra a escrivaninha. Sentiu um metal gelado apertar-lhe os punhos.

 

– Quem diabos é você e o que pensa que estava fazendo aqui? – perguntou uma voz rígida e irritada, provavelmente do policial que o havia detido.

– Eu quero falar com o delegado – falou, depois de ficar alguns segundos escolhendo as palavras.

– Eu também – respondeu, agora visivelmente mais irritado – já estou esperando faz uma hora e trabalho aqui faz 10 anos. E você? O que você tem de importante?

– Uma informação – respondeu, de novo escolhendo as palavras.

– Então fale!

– Delegado – insistiu, agora com mais prontidão – e, por favor, tire as algemas. Não sou suspeito de nada, ainda.

 

Uma loira com uma blusa rosa decotada colada ao corpo e uma calça jeans ainda mais apertada estava na mesa à frente. Para ela, o maluco sendo algemado na delegacia havia sido até então a melhor imagem daquela madrugada de quinta-feira. O policial fez um sinal para ela. Ela não entendeu.

 

– Liga no ramal do Dr. Marques e diz que tem um maluco que invadiu a Delegacia e quer falar com ele.

Ela discou um número e, mesmo algemado com a cara na escrivaninha, ele conseguiu reparar nos esmaltes vermelhos da mulher discando no telefone.

– O delegado mandou levar o maluco pra dentro. Algemado.

 

Finalmente tirou a cara da mesa. As costas quase doeram quando ele voltou à posição ereta.

 

– É por ali – falou o policial, dando-lhe um empurrão para frente.

 

Menos de 20 passos entre algumas escrivaninhas, e estavam na sala do delegado. Entraram. Era um senhor na casa dos 60 anos, alto e troncudo, cabelos totalmente brancos e encaracolados e um bigode acirrando a aparência sisuda.

 

– Esse é o maluco? – perguntou o delegado, abrindo um sorriso – pode tirar as algemas dele.

 

Seus punhos estavam livres outra vez. Não pôde deixar de notar alguns pequenos hematomas que já se formavam na base das mãos.

O delegado olho de cima embaixo aquele rapaz jovem, dos seus 25 anos, bem vestido, barbeado. Não era comum um tipo daqueles na delegacia, ainda mais às 4 da manhã. A não ser por um único elemento, que Marques, depois de tantos anos de polícia, sabia identificar como ninguém, como se sentisse o cheiro: o terror da culpa latente no olhar.

 

– Sente-se, filho – falou o delegado, apontando para um sofá de tecido amarelo-encardido que ficava de frente para a mesa – pode ir – falou ao policial – acho que ele não vai tentar me atacar. Depois eu falo com você.

 

O policial ainda teve tempo de lhe lançar um último olhar de irritação. Fechou a porta e voltou para sua mesa, assediar a loira enquanto esperava pelo delegado. Ficou quieto. O coração batia tanto que parecia querer saltar do seu leito. As mãos suavam e sentia frio.

 

– Acalme-se filho – falou o delegado – quer uma água? Talvez um café?

– Café, por favor, sem açúcar – respondeu.

– Sabe filho – falou o delegado, enquanto servia o café num copinho de plástico – seja qual for o motivo de sua vinda, foi bom ter vindo – falou, entregando o café – agora fale. Qual é sua história?

Tomou um gole de café. Estava morno, quase frio. E fraco.

– Minha história começa no final da tarde de ontem.

 

 

São Paulo, 6 de setembro de 2005, 17h50

 

– Vai ver o jogo amanhã? –ergueu a cabeça por sobre o monitor e um pequeno biombo de madeira compensada que separava sua mesa da mesa do amigo.

– Claro – respondeu o outro, erguendo a cabeça por cima do seu monitor – não perco esse jogo por nada – essa o Tricolor faz questão de ganhar. Não posso deixar de ver.

– Vai nada. Vai dar Coringão na cabeça – respondeu a provocação; nunca deixava barato; o amigo também gostava de uma boa discussão por causa de futebol, às vezes até brigavam e ficavam horas sem trocar uma palavra.

Amigos de infância. Cresceram juntos na mesma rua da pequena cidade perdida na boca do sertão paulista. Estudaram juntos da infância à adolescência. Passaram juntos no vestibular e agora moravam juntos na Capital.

 

– Esse jogo é questão de honra para o São Paulo – provocava Nicanor – já ganhamos uma vez, vamos ganhar duas.

– Que nada – respondia o outro, respirando fundo no passo apertado do ritmo forte da capital – esse campeonato já é do Coringão! Ninguém tira!

– Sem contar os constantes “erros” – imitava as aspas com os dois primeiros dedos de cada mão – sempre a favor do Corinthians, nunca contra. Coincidência né?

– Pára com isso – falava o corintiano – você está é com dor de cotovelo porque o São Paulo não teve força pra chegar entre os melhores nesse campeonato. O time parou depois que ganhou a Libertadores.

– Eu queria ter dinheiro pra ir ao Japão ver o São Paulo. Lembro da final de 1992! Aquele foi um grande jogo! Acho que ganhar do Liverpol é mais fácil do que foi ganhar de Barcelona e Milan. Por enquanto vou ter que ver pela TV. Mas ano que vem, com certeza o Tricolor está lá de novo.

– Acorda pra vida cara! Não vai acontecer nada disso. É melhor você nem gastar dinheiro para atravessar o mundo. A viagem de volta vai ser bem mais amarga pode apostar.

O futebol foi assunto até a porta do apartamento. Dali em diante tinham coisas melhores para pensar em uma véspera de feriado, até que chegasse a tarde do dia seguinte.

 

São Paulo, 7 de setembro de 2005, 11h15

– Não vou convidar você pra ir comigo – falou – não seria uma boa idéia.

– Com certeza não – respondeu o outro, sorrindo com a possibilidade.

– Eu vou saindo então – disse, pegando um pedaço de pão e tomando apressado um copo que havia enchido de refrigerante – vou encontrar uma galera pra ir de carona.

– Legal. Eu acho que vou de ônibus com o povo do Arouche. Ou vou com uns amigos do Brás. Não sei ainda. A gente só sai depois da uma da tarde.

– Até de noite então. E que vença o melhor, ou seja, o Corinthians.

– Vai ser 2×1 pra gente com dois gols do Amoroso.

 

Saiu. Caminhou apressado por alguns quarteirões. Tomou um circular, desceu vinte minutos depois. Um grupo de 20 pessoas já o esperava, em uma das milhões e milhões de esquinas da metrópole. Estava nervoso. Era o dia da sua “estréia”. Sempre sonhara em fazer parte de uma torcida organizada do Corinthians. Desde criancinha. Ia receber sua camisa oficial e documentação de membro-integrante. Era a surpresa que reservava para Nicanor pra depois do jogo. De preferência, após ter comemorado como de costume, no Barraco do Cidão, reduto de corintianos que ficava perto de onde descia do ônibus na volta para a casa. Emoção. Era isso que queria do futebol, como tantas outras pessoas comuns, advogados, professores e engenheiros que estavam ali. Bandeiras, gritos de guerra, torcida.

– Todo mundo lembra do plano? – gritou um homem alto, de braços fortes, e cabeça raspada; o grupo de mais ou menos 30 pessoas que estava ali sussurrou e balançou a cabeça positivamente – a gente se encontra na quadra, depois do jogo. E não se fala mais nisso.

 

Reuniram-se, fizeram o grito de guerra, e foram ao Morumbi naquela tarde fria de 7 de setembro.

 

São Paulo, 7 de setembro de 2005, 18h40

Como era difícil sair do estádio depois dos clássicos. Mas toda a demora do mundo não seria mais saborosa do que aquela. Ah, Amoroso! Lindo gol de Amoroso! Driblou um, driblou dois, bateu cruzado! E o gol do Souza então? Saiu como um raio da sobra dos zagueiros do Corinthians! E o pênalti. Com certeza foi! Para o juiz marcar um pênalti contra o Corinthians tem que ser muito pênalti. Não via a hora de chegar em casa para provocar o amigo corintiano. Ah, lindo gol do Amoroso! Ia falar do gol do Amoroso por vários dias!

Finalmente conseguiu sair. Andou pelas calçadas do Morumbi. Teve correr para fugir do tumulto. Escondeu a camisa do São Paulo sobre a camiseta que vestia por baixo. Estava acostumado a essas pequenas operações de guerra para fugir de transtornos na porta de estádios na Capital Paulista. Poucos minutos depois estava no ônibus fretado por amigos tricolores do Arouche.

Ali sim já se podia ficar a vontade. O ônibus seguiu marcha e as bandeiras tremularam para fora das janelas. Comemoravam a saborosa vitória sobre o adversário. O gol do Amoroso! Pouco tempo depois o veículo parou. Foi uma freada brusca, pôde perceber porque alguns companheiros que estavam em pé no fundo chegaram a cair pelos corredores.

 

– Todo mundo no chão – gritou alguém na parte da frente do ônibus

 

O grito foi confundido com barulho de sirenes, carros freando bruscamente e tiros. Foram segundos de terror enquanto ele tentava se proteger da fúria dos adversários. Mais tiros, explosões. Ouviu o barulho de um vidro se quebrando. E uma explosão que ensurdeceu todos os outros sons. E depois veio a sensação de paz.

 

 

São Paulo, 7 de setembro de 2005, 19h25

 

– Agüente firme! – uma voz gritava com ele e sacudia seu rosto, atrapalhando a sensação estranha de paz – vamos. Fique!

 

Conseguiu abrir os olhos. Viu um corredor branco cheio de luzes frias no teto que ofuscavam sua visão. Esforçou-se e conseguiu distinguir. Estava deitado, pessoas o rodeavam, andando apressados para todos os lados e conversando nervosos um com os outros.

 

– Esse aqui perdeu muito sangue – falou um médico – os sinais vitais estão sumindo.

 

“Sinais vitais sumindo?” Entrou em pânico. Não poderia morrer. Tinha que voltar para a casa. Tinha o gol do Amoroso. Ah! Que lindo gol fez o Amoroso! E a vida continuava. Veria o São Paulo campeão do mundo pela terceira vez. Não era sua hora.

 

– Adrenalina! Adrenalina! – os gritos já pareciam como textos de um filme que estava vendo em uma outra sala.

– Não está adiantando! Vamos perdê-lo.

 

E foi tomado de vez pelo sentimento gentil de paz eterna. Uma paz que nunca sentiu antes. E por uma fração de tempo, era como se ele mesmo fosse o companheiro de Amoroso no ataque do São Paulo. Viu de perto o atacante Tricolor dominar a bola, driblar dois e bater forte de perna direita. A explosão da torcida num grito extasiado. A emoção de estar no gramado, ouvindo a alegria da torcida a comemorar o gol era algo indescritível. Correu abraçado com Amoroso, saldou os torcedores, saldou os companheiros. Beijou o símbolo no uniforme. E nada mais importava, dores, paixões, desejos e sofrimentos.

 

São Paulo, 7 de setembro de 2005, 21h

 

A polícia estragou tudo. Era para ser uma ação perfeita. Era o que pensava quando chegou em casa, abriu uma cerveja e pôs-se a pensar e repensar as imagens daquele dia. Ser preso logo na sua estréia seria muito azar. Não conseguiu ir para a quadra conforme o combinado. Outros companheiros da torcida organizada foram presos no local. Não queria ligar a TV. O Coringão havia perdido para o São Paulo mais uma vez naquele ano.

Relutou, mas ligou. A solidão do apartamento não era bom celeiro para seus pensamentos. A TV seria uma boa distração. Minutos depois, viu um boletim ao vivo da equipe de jornalismo, que foi ao ar em um dos intervalos do Fantástico. O locutor falava.

 

“Cinco pessoas morreram e outras 15 ficaram feridas em uma briga de torcidas nas imediações do morumbi na noite de hoje, logo após o clássico entre São Paulo e Corinthians. Um grupo de torcedores corintianos cercou um ônibus que levava a torcida do São Paulo. Segundo a polícia, o veículo atacado não era de uma torcida organizada…”

 

Desligou a TV. Era besteira pensar que seu amigo estava no ônibus. O silêncio era melhor. As notícias e imagens só serviriam para poluir mais ainda seus pensamentos. Ligou o som, terminou de beber a cerveja, abriu outra e já pensava em tomar um banho, quando tocou o celular. Olho a bina, era um número conhecido, ligação do interior.

 

– Alô? – atendeu

– Celso? – do outro lado falava uma voz conhecida de longa data, mas havia algo de errado naquele tom – você está bem?

– Estou.

– Que bom que você chegou em segurança, Celso… – aquela pequena pausa embargada por lágrimas lhe pareceu uma eternidade – o Carlos morreu – a voz desatou a chorar.

– Morreu? Como?

– Ligaram agora do hospital – continuava, ainda chorando – jogaram uma bomba no ônibus. Ele perdeu muito sangue. Foi socorrido, mas morreu no hospital. Achei que vocês estavam juntos…

 

Desligou o telefone. Desabou no sofá. A respiração falhava, a barriga retorcia e as pernas bambeavam. Não conseguiu dizer à mãe do seu melhor amigo que ele tinha jogado a bomba no ônibus.