Festival do Livro em andamento, tema Orígenes Lessa – conto campeão de concurso em 2005


 

Ganhei duas vezes o concurso literário “Jovens Talentos da Literatura Lençoense”… gozado que, em nenhuma delas, eu era tão jovem assim. Mas mandei material em 2003 e em 2005, disputando na categoria Universitários. Ganhei as duas. Aproveito o Festival do Livro em andamento para publicar o conto vencedor em 2005. 

 

 

Quatro dias em julho

Orígenes Lessa e o leitor pagão

Os últimos dias antes da produção desse texto foram permeados de dúvidas sobre se eu deveria ou não fazê-lo. Consideraria que eu fosse um mero admirador pagão de Orígenes Lessa, com alguns livros e alguns contos na conta. Entre tantos leitores espalhados pelo mundo afora, diria que estou no último escalão no grau de conhecimento sobre Lessa.

Não me sentia seguro para escrever alguma coisa que relatasse a trajetória de Orígenes, escritor e lençoense. Quando ele morreu eu tinha 8 anos. Fui ler um livro dele 10 anos mais tarde. Tive um contanto muito esparso com a viúva, Maria Eduarda Lessa, que nem chegou a ler o meu poema “O Feijão e O Sonho”, que participou desse mesmo concurso em 2003. Li poucos livros. Se esse número for comparado ao todo de sua obra, não li quase nada.

Insegurança à parte, o que é uma matéria jornalística senão, uma história bem contada? Sem medo do resultado, arrisco a pedir licença na orientação, para conseguir uma boa história. O melhor jornalismo é aquele que atropela sua própria métrica para chegar ao coração do leitor. Melhor seria se eu pudesse contar sobre os quatro últimos dias de vida do escritor. Como não estava presente nesses momentos, mas os caminhos e descaminhos da profissão de jornalista costumam levar a descobertas preciosos, e traz momentos que provavelmente ficam guardados por muito tempo.

Esse é um desses momentos, quando eu colhi um relato um tanto inesperado. Por compromissos profissionais, procurei no Senai, a bibliotecária Marli Montoro, na véspera do feriado de Tiradentes. Faria uma matéria sobre a Caravana da Literatura, que acontecia anualmente em Lençóis Paulista, na primeira metade da década de 80. A história da Caravana se confunde com a de Orígenes, e mostra o quão grandiosa e folclórica é a Biblioteca Municipal de Lençóis Paulista. Comentei com ela sobre essa minha insegurança de tentar participar do concurso com um texto que talvez não estivesse à altura de Orígenes. Ela se dispôs a ajudar no tempo que nos cabia. Ou perderia algumas horas do final de semana prolongado para conversar comigo.

Falávamos de Caravana e de Orígenes. A vida do escritor é tão repleta de curiosidades que é impossível resistir à tentação de ficar ouvindo histórias sobre ele. Algumas lendas, algumas verdades, mesmo que elas não fossem o principal objetivo da conversa. Diria que é um folclore abençoado, porque dificilmente vai se repetir, e é algo tão único que todos gostamos de pensar que Orígenes é nascido no mesmo chão que nós pisamos.

Muita gente não perdoa em um escritor a adequação da realidade à literatura. Diz a lenda que o bom escritor é aquele que cria absolutamente tudo em sua obra. Orígenes era discretamente observado por um comportamento de ruptura. Enquanto escritor, era considerado o menino tímido de 10 anos, discreto, matreiro observador de fatos e causos. Sendo assim, eu sou péssimo, uma vez que só escrevo sobre a realidade. Ou seja, pesquisei, preparei material, mas no fim vou acabar escrevendo de punho, sobre uma cena que presenciei. Ossos do ofício.

 

Quatro dias em julho

Claro que esse relato é algo rudimentar se comparado à riqueza da história em si. Algo que eu comentei com a Marli que poderia render assunto para um livro. Quando conversei com ela sobre minha incerteza ela me sugeriu de pronto que tentasse abordar algo que fosse de caráter muito particular de Orígenes, entre tantos, a questão da sua paixão por Lençóis Paulista. Como disse, é difícil resistir à tentação de ficar horas e horas perdido em histórias sobre ele. Minha tentação de ouvir histórias era quase a mesma que a Marli tinha de contá-las. Ela que teve a felicidade de conhecer o escritor de perto e viver próxima a ele durante os seis últimos anos de sua vida.

Marli contava histórias a esmo, com os olhos rasos d’água. Prendeu a respiração e suspirou na última vez que eu tentei manter a entrevista focada nas Caravanas. Desisti, é claro. Afinal, aquela era história que não poderia se deixar de ouvir, como eu aprendi no conto “A Aranha”. É um rudimentar relato feito a partir de um bate-papo, um causo contado entre pretensos assuntos sérios. É bem provável que haja equívocos nas datas, ou nos dias da semana, ou na ordem de pequenos acontecimentos. Mas é essência.

O dia era 10 de julho de 1986, uma quinta-feira. Antes, uma breve descrição sobre a rotina das Caravanas ajuda a entender melhor o caso. Em todo ano, desde 1981, uma caravana de escritores – composta basicamente pelos cariocas da Academia Brasileira de Letras, amigos de Orígenes – vinha para Lençóis Paulista para discutir sobre literatura, questões da atualidade e visitar empresas e entidades do município. Naquele ano o evento foi antecipado para março. Perguntada sobre o assunto, Marli garante que a mudança na data não teve nada a ver com o estado de saúde de Orígenes. O real motivo ela não falou e eu não perguntei. Não vinha ao caso. Ou seja, 1986 a Caravana da Literatura não foi na semana de seu aniversário.

Orígenes tinha algum evento agendado naquele final de semana. “Eu foi buscá-lo no aeroporto em São Paulo e ele não desembarcou. Fiquei assustada e, atendida pelos funcionários da companhia aérea, descobrimos que ele não havia embarcado”, lembra Marli. Ela tentou durante um bom tempo falar na residência do escritor. Horas depois, foi atendida por sua esposa, Maria Eduarda Lessa. “Não havia ninguém em casa na hora que estava ligando. Ela me contou que o Orígenes tinha passado mal e havia sido levado ao hospital”. Por telefone – uma ligação de mais de uma hora – Marli anotou o texto e ia representar Lessa no evento que o esperava na Capital Paulista.

“Nem voltei para Lençóis. Avisei o Ideval (Paccola, prefeito na época) e do jeito que eu estava, peguei um avião para o Rio de Janeiro. Já sabia da sua fragilidade e queria ficar perto dele. Levei a única muda de roupa que eu tinha em São Paulo”, continua. Marli conta que, nos últimos dias, Orígenes teve a companhia dela, de Maria Eduarda e de alguns companheiros de ofício. Ela ri com ternura lembrando da presença do escritor Austregézilo de Athaíde no hospital. “Sempre que algum amigo dele estava ruim ele fazia questão de acompanhar os últimos dias e inclusive ajudava as famílias em algumas despesas. Eu gostava tanto daquele homem, mas naqueles dias fiquei com raiva dele. A presença dele no hospital não me era um bom sinal, como se ele fosse um urubu”, brinca. Ainda durante sua estada no hospital, ouviu um coral de crianças da Igreja Presbiteriana que cantava na rua e em vigília e homenagem por trabalhos do escritor voltados ao público infantil.

Orígenes completou 83 anos no sábado, dia 12 de julho. “As pessoas que sabiam que ele estava mal, ligaram pra ele no domingo. O Ideval Paccola e o José Sarney. Logo que ele recebeu o telefonema de Sarney, ele riu e fez uma piada”, lembra. “Estou ficando importante. No mesmo dia recebi os telefonemas do meu prefeito e do meu presidente”, disse ele. Pediu pra tomar sorvete. “Eu perguntei para o médico se não tinha problemas. Ele disse que não. Sai comprar o sorvete. Ele adorava sorvete”.

Saboreou o sorvete. Teve alguns momentos de reflexão, e a célebre frase veio num instante em que ele abandonou o ar de travessuras. “Marli, se eu morrer aqui, você me leva para Lençóis?”. “Claro que levo”. “Então está bom”, fechando-se num sorriso de satisfação. Menos de meia hora depois seus sinais vitais reduziram. Orígenes Lessa foi removido à UTI, e pouco tempo depois não estava mais entre os mortais. “Ele tinha lá o mausoléu da Academia Brasileira de Letras, mas preferiu ser enterrado aqui”, disse.

“Era um homem muito simples com uma travessura quase sem limites, ao mesmo tempo em que tinha idéias geniais. Eu convivi pouco tempo com ele. Mas foram seis anos muito intensos”, completa. Na saída, um papel no bolso com as informações para a matéria sobre as Caravanas. Ela me deu um abraço e me agradeceu por me lembrar de Orígenes, e reforçou que eu poderia procurá-la no feriado prolongado para discutir alguns assuntos. Não vi motivo para incomodar Marli. Achei que já tivesse a minha história pra contar. Pelo menos por enquanto.