A história do Rock de Brasília parte V – Raimundos, o último suspiro




No cronograma das bandas, o último grande suspiro do rock de Brasília foi o surgimento dos Raimundos. A banda apareceu em 1991, momento altamente favorável, alçada pelo sucesso dos conterrâneos Legião Urbana e Capital Inicial (a Plebe Rude já estava em crise), a cidade natal era mesmo a única coisa que a banda tinha em comum com as precursorasO som era infinitamente mais pesado, talvez sinal do acompanhamento da linha evolutiva do rock no mundo. E a boa e velha verve de Brasília estava de volta. A ligação dos Raimundos com a Turma da Colina era estreita. A primeira delas é a presença do baixista Canisso, companheiro de baladas de Renato Russo, Fê Lemos, Phillipe Seabra, Dado Villa-Lobos, Dinho Ouro Preto etc. Digão era baterista da banda Filhos de Mengele, originada na Turma em 1985.
                    É certo que as primeiras músicas da banda não foram sucesso de crítica, apesar de cativar o público num piscar de olhos. O primeiro sucesso foi Selim, que explodiu em 1994 junto com o disco “Raimundos”. A banda seguiu no gás e em 1996 foram dois CDs, o ao vivo “Cesta Básica” e o “Lavo Tá Novo”. 
                    A aclamação da crítica veio em 1997, com o CD “Lapadas do Povo”, que trazia a violência social á flor da pele, em sucessos como “Baile Funk”, uma das melhores letras entre o repertório do rock nacional.
“Baile Funk” - (Rodolfo, Digão e Canisso)

Essa mulher tá me olhando
E me dizendo que me quer no meio
Funk baile funk
Moça bonita do jeito que a nega grita
É na lapada
Nós vamos tirando o sangue
 
Sul, essa mulher tá me dizendo
Que a vontade tá no sul
A bússola tá me dizendo
Que ela tá no sul
 
Você com a arma do lado
Tome cuidado na briga
Que esse rei na barriga
Tá ficando velho
Alto lá nego doido
Tá com medo pra que veio?
Tá com a perna bamba de quem vai morrer
 
Eu tõ cansado da TV e 
Do bombardeio da mota
Manda comprar tudo que eu ver
Tudo que ela tem pra vender
Eu sou um calo nos dedos
Da mão na roda
Que não pára de crescer
A Lei não sabe a diferença
O que é ser e ficar louco
O remédio é tão forte que
Mata cada dia um pouco
Se todo excesso fosse 
visto como fraqueza
e não como insulto
já me tirava do sufoco
 
A porta tá sempre aberta pro povo
 
Casca do cerrado 
Chegaram os mortos de fome
Sujeira de outra parte 
Que vem pra sujar seu nome
Eu te falei que o ladrão
Que rouba mesmo é bem vestido
E eu vi de monte
Essa zuada no telhado 
É o vento que a vida leva
Pensamento antiquado
Te apaga queimando a erva enraizada
Fica o dono do pé que finca 
na terra e faz a ponte
Povo de Zé Ofensa
 
E na igreja que o povo
Esvazia as bolsas
Tem quatro santos, 
Três queimando o kunk
Decidindo o destino dos
Outros como se fosse Deus
Atrás da mesa o açougueiro comanda
E a intolerância me manda
De novo pro banco dos réus
Armado com a propaganda
Naquela teia de aranha
Tem cobra, cachorro e rato
E o remédio pra matar
É verde feito de mato
Chegou a hora de mudar
E de por sangue novo
E deixar essa porta sempre
Aberta pro povo
 
A Justiça não me olha 
Porque é cega
Mas o seu dinheiro na
Carteira ela enxerga
A Lei do cão não é 
Nada mais que a 
Própria lei do homem
E quanto mais eu olhava
Mais aumentava a crença
De que o guarda do seu lado
Não é nada do que você pensa
Pro povo do cerrado
Do alto do colorado
Tem outro nome
Povo de Zé Ofensa


                    Os Raimundos ainda lançaram o polêmico “Só No Forevis”, em 1999. O CD é uma sátira nada sutil para cima dos pagodeiros, que estavam em alta na época. Além disso, sobram provocações para autoridades que proibiram os menores de 18 anos de assistir o show da banda e a bronca de “Deixa eu Falar”, composta em parceria com Black Alien – Planet Hemp – e os conterrâneos do Natihuts.
                    O disco “Ao Vivo”, lançado em 2000, com a regravação de “20 e Poucos Anos”, de Fábio Júnior, encerraram um ciclo da banda. Em 2001, a saída do vocalista líder da banda Rodolfo, anunciada cerca de uma semana depois do show da banda em Lençóis Paulista, confirmou essa tendência. A banda seguiu em frente, mesmo com o trabalho descaracterizado – não menos que o do Capital Inicial. Recentemente foi a vez do guitarrista Canisso anunciar a saída da banda. Os Raimundos hoje vivem indefinição.


Paralamas do Sucesso, um capítulo à parte
                    Os Paralamas do Sucesso são um capítulo à parte no rock de Brasília. Oficialmente a banda se originou no Rio de Janeiro. Hebert Vianna deixou a cidade em 1977 e foi fazer faculdade na capital carioca. Nos primórdios a banda se resumia em Hebert e o baixista Bi Ribeiro. Bi, aliás, mantinha contatos freqüentes com a Turma da Colina. O irmão do líder dos Paralamas do Sucesso, Hermano Vianna, também era integrante da Turma. 
                    Em 1979 Bi voltou da Inglaterra e começou a ensaiar com Hebert, na mesma época em que Aborto Elétrico, Blitx 64 e Metralhas começavam a fazer seus shows em Brasília. Os Paralamas começaram a dar valor ao que acontecia na Capital federal, que chegou até a ser sonho de consumo da banda, como visto na primeira demo que o grupo gravou. “Os Paralamas do Sucesso iam tentar tocar na Capital/ E a Caravana do Amor também pra lá se encaminhou”, é um trecho da letra.
                    O sonho de tocar em Brasília, no entanto, só foi conquistado após o lançamento do segundo CD, “O Passo do Lui”, em 1984. O grupo estreou com “Cinema Mudo”, em 1983 e lançou um disco por ano até 1991, seqüência admirável para uma banda de rock. 
                    A banda também é responsável por uma das mais puras demonstrações da rebeldia e verve da juventude de Brasília, a canção “300 Picaretas”, gravada no CD “Vâmo Batê Lata”, de 1995. A música foi censurada, sete anos depois da queda do regime militar no Brasil. “Mas a gente continuou tocando do mesmo jeito”, disse Hebert Vianna em entrevista à TV, por ocasião do ocorrido. A letra da canção traz discurso assumidamente panfletário, com um ar de desforra do tipo “tá vendo? Eu avisei”.
Luiz Inácio (300 picaretas)
(Hebert Vianna)

“Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou:
‘são 300 picaretas com anel de doutor’
 
Eles ficaram ofendidos com a afirmação
Que reflete na verdade o sentimento da nação
É loby, é conchavo, é propina e jetom
Variações do mesmo tema sem sair do tom
Brasília é uma ilha, falo porque eu sei
Uma cidade que fabrica sua própria lei
Aonde se vive como na Disneylândia]
Se essa palhaçada fosse na Cinelândia
Ia sobrar muita gente pra pegar na saída
Fazer justiça uma vez na vida.
 
Eu me vali desse discurso panfletário
Mas a minha burrice faz aniversário
Ao permitir que num país como o Brasil
Ainda se obrigue a votar
Por um par de sapatos ou um saco de farinha
A nossa imensa massa de iletrados
Parabéns coronéis, vocês venceram outra vez
O congresso continua a serviço de vocês
Papai quando eu crescer quero ser anão
Pra roubar, renunciar, 
Voltar na próxima eleição
 
E se eu fosse dizer nomes a canção era pequena
João Alves, Genebaldo, Humberto Lucena
De exemplo em exemplo aprendemos a lição
Ladrão que ajuda ladrão
Ainda recebe concessão
De rádio FM e de televisão”

                    Os Paralamas do Sucesso é a única banda dessa leva que pode se gabar de ser formada por excelentes instrumentistas, principalmente o baterista João Barone, considerado o melhor da América Latina. Por conta dessa facilidade com os instrumentos, a banda assina um dos discos acústicos mais bem elaborados entre todos os artistas que lançaram trabalhos neste molde. O trabalho veio em 199 e, além das músicas da banda recriadas paras as cordas de violão, o repertório dos Paralamas é enriquecido por músicas de diferentes vertentes musicais, de Clube da Esquina a Chico Sciense e a Nação Zumbi. A banda também manteve as atenções voltadas para o mercado latino, em 2000 lançaram cinco CD em espanhol.
                    Um grave acidente com avião monomotor quase pôs fim à vida de Hebert Vianna, líder da banda, no início de 2001. Mas Hebert sobreviveu e teve recuperação considerada impressionante pela equipe médica que acompanhou o líder dos Paralamas do Sucesso. Assim que o vocalista da banda se apresentou em condições, o grupo voltou a trabalhar no novo CD, sempre na medida do possível e sem compromisso de lançamento. “Longo Caminho” foi mixado no final de julho deste ano e, em novembro, já havia vendido mais de 279 mil cópias, e rendera o disco de platina à banda.