A história do rock de Brasília – Parte IV – A Legião Urbana


 

A Legião Urbana é ao mesmo tempo a mais cultuada, importante e curiosa banda do rock nacional. É a mais cultuada porque até hoje cativa fãs pelo país – e muitos nem sequer tinham nascido em 1982, quando a banda começou a ensaiar. Importante porque a banda mostrou para a crítica e para o mundo o poder de comunicação que o rock nacional tinha. No livro Conversações com Renato Russo (Editora LETRA LIVRE, 1996), o líder da banda declarou: “Se eu tenho medo que me esqueçam? Não; eu estou com o público e ele está comigo”.

E por fim, a mais curiosa, pelas várias passagens inusitadas envolvendo integrantes de uma banda. A primeira banda de Dado Villa-Lobos, por exemplo, chamava-se “Dado e o Reino Animal”, na adolescência do futuro guitarrista da Legião Urbana. Detalhe: na época Dado não sabia um acorde de guitarra e, no único show da banda, “tocou” com o instrumento desligado. A legião tem ainda um hoje fotógrafo, ex-guitarrista, que tinha fobia de palcos. Trata-se de Ico Ouro-Preto – irmão de Dinho Ouro-Preto, vocalista do Capital Inicial – que praticamente não tocou ao vivo com a banda e hoje nem pensa mais em guitarra.

Renato Russo era o herói mais improvável que o rock nacional poderia produzir. Homossexual, míope, franzino e sempre com livros embaixo do braço. Na adolescência, ridicularizado pela juventude de classe média de Brasília – que a Turma da Colina chamava de playboys. Numa das muitas vezes em que playboys e punks se pegaram pelas ruas da Capital, o futuro líder da Legião tentou argumentar com um deles: “A gente não pode ficar brigando entre nós. Temos que brigar com o sistema”. O playboy respondeu de pronto: “Então teu nome é Sistema!”.

Renato Russo era o herói mais improvável que o rock nacional poderia produzir. Homossexual, míope, franzino e sempre com livros embaixo do braço

 

 

O vocalista da Plebe Rude, Phillipe Seabra, conta que futuramente essas mesmas pessoas é que viriam a ser os maiores fãs das quatro bandas da Turma da Colina em Brasília. Apesar de tímido, Renato Russo sempre exerceu liderança na Turma da Colina pelo carisma que tinha. Era, ao lado de Feijão, guitarrista do Finis Africae, um ícone para os demais punks brasilienses.

Outro caso interessante foi logo quando a Legião assinou contrato com a EMI. Renato Russo ligou para o Babu – que viria a ser guitarrista de cinco bandas periféricas da Turma da Colina: 3º Pólo (de 1982), Frete, Mantenha Distância, Diamante Cor-de-Rosa (todas de 1983) e Peter Perfeito (entre 1984 e 1986; a banda acabou em 1997) – perguntando se ele sabia tocar baixo. Brincando, Babu disse só sabia tocar alto. Russo deu risada e desligou o telefone. A brincadeira do músico lhe custou uma vaga naquela que viria a ser a mais importante banda da história do rock nacional. “Perdi a chance de uma vida por causa de uma piadinha sem graça!”, reconheceu.

Quando a Legião Urbana surgiu, em 1982, pouco se apostava em Renato Russo no meio artístico de Brasília. A Plebe Rude estava no auge. Desde que surgiu foi sensação entre os jovens da cidade, órfãos do Aborto Elétrico. Na sua formação original, a Legião tinha Paulista nos teclados, Paraná na guitarra, Bonfá na bateria e Renato Russo no baixo. Um ano depois, Paulista saiu e Iço-Ouro Preto substituiu Paraná. Ainda em 1983, a banda assume a formação clássica, que ficou até a morte de Renato Russo, em 1996: Russo no baixo, Dado na guitarra e Bonfá na bateria.

Mas pouco antes de assinar o primeiro contrato, o líder da banda tentou o suicídio, cortando os pulsos. Não conseguiu. Como Babu tinha dito que não tocava baixo, só alto, Renato Rocha, também conhecido como Negrete, assumiu o contrabaixo e a Legião partiu para o primeiro trabalho. Se as 250 mil cópias vendidas do primeiro disco do Capital Inicial eram consideradas absurdas, o que não disseram da vendagem de 635 mil cópias do LP “Legião Urbana”. Nada. No segundo trabalho, “Dois”, de 1986, foram 1,3 mil cópias vendidas. Esse LP consagrou as músicas “Eduardo e Mônica” e “Música Urbana 2”, além de apresentar dois hinos do rock nacional: “Tempo Perdido” e “Índios”. A segunda, considerada pela própria banda como música mais difícil já criada pela Legião Urbana, foi trabalhada por mais de um ano antes de ser considerada pronta. Fato curioso é que Renato Russo sempre esquecia a letra de “Índios” nos shows ao vivo. Como isso acontecia sempre, antes de começar a música o cantor já avisava a platéia que poderia esquecer a letra.

O terceiro trabalho, em 1987, trouxe um clima de nostalgia à Legião Urbana, que no segundo disco já começava a perder as características da Turma da Colina. “Que País É Esse?” foi um presente para a adolescência de Brasília, que viu a trilha sonora de suas noites monótonas ganhar repercussão nacional. No CD, várias canções da época do Aborto Elétrico, como “Que País É Esse?” – que dá nome ao trabalho –, “Química” e Conexão Amazônica. Outras, propagadas na voz de Renato Russo, o então Trovador Solitário, como “Eu Sei” e a lendária “Faroeste Caboclo”. Uma das canções do LP reflete com precisão como era a vida dos jovens de Brasília no início dos anos 80. O nome da música é “Tédio, Com Um ‘T’ Bem Grande Pra Você”. “Moramos na cidade/ também o presidente/ e todos vão fingindo/ viver descentemente/ mas quando escurece/ só estou a fim de aprontar/ tédio com um ‘T’ bem grande pra você”

Negrete saiu da banda em 1989, logo depois do grupo lançar uma das respeitadas do rock nacional “As Quatro Estações”. Desse disco saíram canções antológicas para o público como “Há Tempos”, “Monte Castelo”, “Meninos e Meninas” e “País e Filhos”. A crítica venerou outras canções que não foram tão ouvidas nas FMs: “Eu Era Um Lobisomem Juvenil”, “1965: Duas Tribos” e “Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar”.

O “Quatro Estações” trouxe pouco da verve propagada em Brasília, mas a Legião seguia no caminho da politização da juventude, como, por exemplo, nos versos de “1965: Duas Tribos”: “Quando querem transformar/ dignidade em doença/ quando querem transformar/ inteligência em traição/ quando querem transformar/ estupidez em recompensa/ quando querem transformar/ esperança em maldição/ é o bem contra o mal/ e você de que lado está?/ estou do lado do bem/ com a luz e com os anjos/ mataram o menino/ tinha arma de verdade/ tinha arma nenhuma/ tinha arma de brinquedo”. Esse LP trouxe outra preciosidade. Uma canção escrita em inglês por Renato Russo em homenagem a Cazuza, “Feedback song for a dying friend”, com tradução de Millôr Fernandes. A música foi gravada em inglês, mas quem tiver o LP ou o CD encontra a letra traduzida. Em português, “Canção retorno para um amigo à morte”. Cazuza morreu em 1990.

Mais tarde, em texto enviado ao site Rock Brasília, Millôr conta que, por ser um poema audacioso e seu autor ainda vivo, procurou Renato Russo para que ele conferisse a tradução. O líder da Legião Urbana não mudou uma vírgula e às vezes murmurava perplexo: “Deus do céu, eu escrevi isso?”. “Só quando leu na sua própria língua o que tinha escrito em inglês é que Renato percebeu a audácia do que dizia”, observou Millôr.

Para a Legião Urbana, tudo que veio depois de “As Quatro Estações” e antes da morte de Renato Russo, já representava a decadência. Não na qualidade do trabalho, mas na aceitação do público. O quarto LP do grupo vendeu mais de 1,3 milhões de cópias, número que só seria alcançado no “Acústico MTV”, lançado dez anos depois.

Mas a banda não se privou de produzir suas pérolas. No quinto trabalho da Legião Urbana, o LP “V”, de 1991, a banda apresenta duas canções que mais tarde ficariam eternizadas: “Metal contra as Nuvens” e “Teatro dos Vampiros”. A primeira tem mais de onze minutos de duração e seria uma “homenagem” ao então presidente Fernando Collor de Mello – essa informação nunca foi confirmada nem contestada pela banda. No trecho mais denso da música o líder da Legião diz: “quase acreditei na sua promessa/ e o que vejo é fome e destruição/ perdi a minha cela e a minha espada/ perdi o meu castelo e minha princesa.”

Em 1992 a banda lança o “Música para Acampamentos”, com uma coletânea de músicas gravadas em shows ao vivo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Algumas canções foram retirados do programa “Acústico MTV”, que a banda gravou em 1992 para promover o lançamento do “V. Apesar do capricho e carinho de Renato Russo e companhia na hora de produzir esse trabalho, o disco foi o que menos vendeu. Ainda assim, com números altos: 350 mil cópias.

A volta por cima veio no sexto trabalho da Legião Urbana, “O Descobrimento do Brasil”, de 1993. O disco é marcado pela nova fase da banda, que finalmente tinha assumido a ruptura com a influência musical de Brasília. Finalmente a banda havia encontrado o equilíbrio entre a serenidade da Legião e a rebeldia do Aborto Elétrico. Prova disso é “Perfeição”, primeira música de trabalho do CD e uma das mais queridas pelos fãs em todos os tempos. Nessa canção, a ironia e indignação do punk culminam num hino de esperança. “Venha, meu coração está com pressa/ quando a esperança está dispersa/ só a verdade nos liberta/ chega de maldade e ilusão.”

No trabalho também vem a mensagem de esperança na vida do líder da Legião Urbana, finalmente afastado em definitivo do contato com as drogas. Evidência disso vem na letra da última canção do CD, “Só por hoje”: “Só por hoje eu não quero mais chorar/ só por hoje eu não vou me destruir/ posso até ficar triste se eu quiser/ mas é só por hoje/ ao menos isso eu aprendi.”

Nas rádios, o quinto disco da Legião Urbana ficou conhecido através das canções “Vinte e Nove”, “Vamos Fazer um Filme”, “Love In The Affternoon” e “Giz”. A última sempre foi a preferida de Renato Russo, entre todas que a Legião gravou.

O próximo disco depois de “O Descobrimento do Brasil” só saiu em 1996, semanas antes da morte de Renato Russo, em outubro daquele ano. “A Tempestade” trouxe um ar melancólico que a banda ainda não tinha. O disco foi apreciado pelo grande público em clima de despedida. Deste trabalho, a música que mais tocou nas rádios foi “A Via Láctea”: “hoje a tristeza não é passageira/ hoje fiquei com febre a tarde inteira/ e quando chegar a noite/ cada estrela parecerá uma lágrima”.

A morte de Renato Russo decretou o fim da Legião Urbana. Depois a banda ainda lançou outros dois trabalhos com material que tinha sem utilizar. Em 1997 veio a “A Outra Estação”, que além de “Flores do Mal”, música de trabalho vazia com refrão decorativo, o disco trouxe raridades como “Marcianos Invadem a Terra” – ainda da época do Aborto Elétrico – e uma gravação corriqueira em estúdio de “Travessia do Eixão”, música que faz parte do folclore de Brasília.

Em 2000, o acústico que a banda havia feito na MTV em 1992 virou CD e foi lançado no mercado nacional. A música de trabalho era “Hoje a Noite não Tem Luar”, que Renato Russo cantou de birra no intervalo entre uma música e outra, enquanto Dado Villa-Lobos afinava o violão. O cantor achou que não estava sendo gravado e mal sabia que sua brincadeira seria sucesso cerca de quatro anos depois de sua morte.