A história do rock de Brasília – PARTE FINAL – Por que Brasília?


 

Brasília e a Turma da Colina

 

Pode parecer besteira, mas não é. Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Plebe Rude e Raimundos não existiram como os conhecemos se os adolescentes do final da década de 70 morassem em qualquer outra cidade do País. Isso porque o marasmo de Brasília era algo monstruoso para eles. A necessidade de se virar para conseguir diversão garantiu a união dos jovens em um grupo discretamente fechado.

Nessa época Brasília era quase que uma cidade fantasma, para os jovens, novo e desconhecido, a começar pela própria arquitetura. Não havia nenhum ponto de encontro, shoping, nada. Era (e ainda) costume na cidade ir aos clubes ou passar as tardes andando de bicicleta pelas “superquadras” da cidade, jogar bola ou conversar em baixo dos blocos. Por volta dos 20 anos, Renato Russo, que mais tarde seria reconhecido por retratar o cotidiano humano com maestria em várias canções, escreveu “Anúncio de Refrigerante”, que descreve dia-a-dia da Capital Federal:

 

 

“Anúncio de Refrigerante”

(Renato Russo)

 

“Sentado em baixo do bloco

sem ter o que fazer

Vendo as meninas que passam

Matando o tempo procurando uma briga

sem ter dinheiro nem prum guaraná

Não vou de tarde pro Conjunto Nacional

Contar os prédios e os cegos e os dragões

Com muita coisa na cabeça e

No bolso nada

Sempre com medo dos PMs

 

Quando chega o fim-de-semana

E todos se agitam

Sempre a procura de uma festa

Os carros rodam enquanto

Se tem gasolina

E ninguém nunca agita nada

Sujeira quando a sua turma

É menor de idade

Não podem ir pro

mesmo lado que você

E a vida que a gente leva

Não é nada igual

Aos anúncios de refrigerantes”

 

 

Foi através da música que os jovens da Turma da Colina encontraram um modo de agir e quebrar o tédio. Em meados dos anos 70, revistas estrangeiras e a brasileira Pop começaram a falar sobre um movimento emergente: o punk. O punk foi o elo de ligação entre os jovens da Turma. Ela não sabia, mas estava nascendo.

O ano de 1977 foi decisivo. Os irmãos Fê e Flávio Lemos – respectivamente, baterista e baixista do Capital Inicial – moravam na Inglaterra e mandavam fitas K7 com músicas punk para os amigos em Brasília. Pelo lado da Asa Sul, Renato Russo também já se interessava. No mesmo, André Pretórios desembarcava em Brasília vindo da África do Sul, com alguns visual punk e alguns discos na bagagem. Uma curiosidade: Renato Russo escreveu uma música chamada “1977”. Essa canção viria a ser o rascunho de “Tempo Perdido”.

Em 1979, já com o Aborto Elétrico na área – e logo depois a Blitz 64 – a Turma começou a se conhecer melhor. Já haviam dois botecos eleitos como ponto de encontro: o Cafofo e a Colina.

A Colina é um conjunto de blocos residenciais que fica dentro da UNB (Universidade de Brasília) e foi a principal referência da Turma (daí vem o nome). Lá apareceram os primeiros punks da cidade. Era onde moravam, por exemplo, Fê e Flávio Lemos (Capital Incial), Gutje Woortman, André Mueller (Plebe Rude) e Bernardo Mueller (Escola de Escândalo).

A 104 Sul é uma das “superquadras” da cidade, com blocos estatais destinados a diplomatas e militares. Como a vida dessas duas profissões é marcada por muitas viagens, o bloco tinha o clima de idas e vindas, por isso acabou virando ponto de encontro das pessoas que moravam pelas redondezas.

Algumas bandas ensaiavam dentro dos apartamentos. Isso proporcionava uma facilidade de troca de informações, devido ao grande número de pessoas que chegava do exterior. O material de consumo eram discos importados, instrumentos e revistas especializadas em música. Esse pessoal demorou mais para assimilar a filosofia punk, insistindo algum tempo em bandas como Deep Purple, Led Zepelin e Black Sabbath. Mas apesar das diferenças, assim que se conheceram as duas turmas se fundiram rápido. Quem morava nesse canto da cidade eram Bi Ribeiro, Hebert Vianna (Paralamas do Sucesso), Dinho Ouro-Preto (Capital Inicial) e Dado Villa-Lobos (Legião Urbana).

Sem diversão pronta, o negócio era improvisar. A maneira de matar a monotonia era fazer uma festa, ou invadir uma (na época tanto fazia) ou organizar acampamentos nas proximidades da 104 Sul e no Salto do Tororó. Esses eventos não tinham duração certa. Às vezes um dia, outras um final de semana. Os últimos acampamentos aconteceram em 1982.

O Cafofo era um boteco que ficava no setor comercial da 408 Norte e o dono era conhecido de alguém ligado à Turma. Nesse bar tinha um porão que passou a ser usados para ensaios e pequenos shows. Foi lá que aconteceu a fusão entre todas as pequenas tribos influenciadas pela onda punk. Em 1982 a Turma começou a freqüentar a Adega, que acabou virando o primeiro ponto de encontro noturno dos jovens.

Adega é como é conhecido popularmente o Cine Centro São Francisco, um centro comercial entre a 102 Sul e a 103 Sul. Servia de partida para as noites dos fins-de-semana. Ou não. As pessoas paravam o carro, colocavam uma fita e ficavam jogando fliperama. Como em um trecho da letra de “Perdidos no Espaço”, do primeiro CD da Legião Urbana. “… e era como se eu jogasse Space Invaders/ perdendo mais dinheiro de muitas maneiras”. Renato Russo era freqüentador assíduo do local e viciado em Space Invaders, um jogo de fliperama.

Nessa época estava mais maduro o cenário musical de Brasília. Aborto Elétrico terminou e surgiram Legião Urbana e XXX (futuramente Escola de Escândalo). Em 1983 aconteceu o festival da ABO (Associação Brasileira de Odontologia), que mais tarde entraria para a história do rock da Capital federal. Foi o primeiro festival organizado pela Turma da Colina.

O teatro da Associação foi alugado por dois finais de semana (duas sextas e dois sábados), onde Plebe Rude, Capital Inicial, Legião Urbana e Banda 69 fizeram quatro shows memoráveis. Depois do festival as apresentações das bandas da Turma da Colina nunca mais foram as mesmas. Cada vez mais houve melhoras de produção e repertório. Ali, a diversão deu lugar ao profissionalismo.

A Turma da Colina começou a se descaracterizar em 1984. Apesar de grande e com vários integrantes novos, o pessoal da primeira geração, que eram os cérebros, começaram a perder o espírito de aventura. Estavam crescendo. A Legião Urbana passou quase o ano todo no Rio de Janeiro gravando o primeiro disco.

No ano seguinte, com o sucesso da Legião Urbana, a Turma se tornou irreconhecível. Começaram a aparecer várias bandas oportunistas, uma vez que já havia duas bandas famosas (Paralamas do Sucesso e Legião) e outras duas em vias de reconhecimento (Plebe Rude e Capital Inicial).

Em 1986, um show da Legião Urbana marcou simbolicamente o fim da Turma da Colina. Naquele ano, além da banda de Renato Russo, Capital e Plebe Rude já estavam fora da cidade. Nessa apresentação, a velha guarda da Turma ficou encostada no palco pedindo as músicas antigas que não estavam no repertório. Um dos maiores orgulhos da história da Turma da Colina foi o fato da Legião Urbana ter sido a primeira banda de rock a tocar no Teatro Municipal de Brasília.

 

A Turma hoje

A turma cresceu e a adolescência se foi. Os membros da Turma da Colina que conseguiram ficar no meio da música estão até hoje, de uma forma ou outra, ligados ao meio musical.

Entre os personagens principais vale destacar que duas das bandas de Brasília ainda estão na ativa: Paralamas do Sucesso e Capital Inicial. Por mais descaracterizado que o trabalho dos dois grupos esteja em relação à época em que ainda havia ligação com a Capital federal, ainda mantém os nomes.

Dos integrantes das Plebe Rude, Phillipe Seabra ainda continua na ativa, só que na banda Daybreak Gentleman, nos Estados Unidos. Gutje Woortman é publicitário, André Mueller virou analista do Banco Central. Bernardo Mueller, letrista do Escola de Escândalo, é economista. Babu, que quase entrou na Legião Urbana, hoje é empresário e produtor cultural.

Marcelo Bonfá, ex-baterista da Legião Urbana, lançou um disco solo “O Barco Atrás do Sol”, em 2000 pela Trama. Dado Villa-Lobos, ex-guitarrista da Legião, é proprietário de uma gravadora, a Rock It!, e apresenta um programa no site Usina do Som.