A história do rock de Brasília – Parte 3


A Evolução

 

Capital Inicial sempre foi a mais pop entre as bandas punks de Brasília, mas no início dos anos 2000, rompeu de vez com as raízes para garantir lugar no show buzzines

 

Em 1985, quando as bandas começaram a lançar os primeiros trabalhos, a Escola de Escândalo conseguiu gravar a primeira demo nos estúdios da EMI, no Rio de Janeiro. O trabalho tinha apoio de Hebert Vianna e produção de Philipe Seabra, líder da Plebe Rude. A demo, no entanto, não foi aprovada. Como a expectativa de que o grupo poderia ter tanta evidência como os outros, a reprovação do trabalho foi o fator decisivo para o fim do grupo. A Escola de Escândalo também registra outro dado importante, a passagem do guitarrista Feijão, quando o grupo ainda se chamava XXX.

Feijão era respeitado pela Turma da Colina assim como Renato Russo. Ele se destacou por tocar todos os instrumentos com extrema habilidade e pela intimidade que tinha com a guitarra, o seu preferido. Todos os guitarristas da Turma sonhavam em tocar ao seu lado. Entre os discípulos mais ilustres, Feijão deixou os guitarristas Loro Jones – Capital Inicial – e Digão – Raimundos. Morreu de meningite em 1996, mesmo ano que Renato Russo. Em menos de um ano, a Turma da Colina perdia seus maiores gênios.

O Finis Africae não era ligada à Turma da Colina, como todas as outras bandas em atividade ou em formação em Brasília. Também era a única que negava as raízes punks do rock da Capital Federal. Quando surgiu, a Legião Urbana já gravava o primeiro disco no Rio de Janeiro. Ainda em 1985 o grupo lançou um trabalho independente pela Sebo do Disco. Em 1987 lançaram o primeiro e único disco de repercussão nacional pela EMI. Sem projeção junto ao grande público, a banda se dissolveu em no início dos anos 90.

Enquanto isso, Capital, Plebe Rude e Legião davam cada vez mais as caras no mercado nacional. O primeiro disco da Capital Inicial, em 1986 vendeu mais de 250 mil cópias, número considerado absurdo na época para o mercado do rock brasileiro. O segundo disco, “Independência”, de 1987 também teve boa vendagem, mas não superou o primeiro. E assim foi sucessivamente, ou seja, cada disco lançado vendia menos que o anterior. A banda teve um período conturbado, marcado pela saída do tecladista Bozo Barretti em 1990 e do envolvimento do líder e vocalista Dinho Ouro-Preto com as drogas até sua saída do grupo em 1993. Na década de 90, o Capital gravou dois discos com Murilo nos vocais. Em 1996 o guitarrista Loro Jones voltou para Brasília e também esteve perto de abandonar o barco.

Em 1998, o grupo voltou a tocar com sua formação original. Em 2000 lançou o Acústico MTV, com participações especiais de Zélia Duncan e Kiko Zambianchi. O trabalho consistia nas versões acústicas das principais músicas do grupo, entre elas, clássicos da época do Aborto Elétrico como “Fátima”, “Veraneio Vascaína” e “Música Urbana”. A música de trabalho era a regravação de “Primeiros Erros” de Kiko Zambianchi – que antes havia ganho sucesso na voz da ex-Balão Mágico Simony, em 1995. Apesar de ser o trabalho da banda de maior sucesso junto ao grande público, o Acústico MTV frustrou os antigos fãs, que ainda carregavam a sede pela rebeldia da década de 80.

Mas em 2002, os seguidores do punk nacional ficaram ainda mais decepcionados com a banda. Apesar da promessa de que, depois do acústico, as guitarras voltariam a falar alto no palco do Capital Inicial, o disco “Rosas e Vinho Tinto” veio totalmente descaracterizado do que a banda já havia feito ao longo da história. É o fim da Capital Inicial? Para muitos isso já aconteceu, devido á diferença entre as primeiras e últimas produções.

A Plebe Rude foi sucesso na Turma da Colina desde seu surgimento. A banda ficou famosa pelo figurino – influenciado pelo The Clash – e energia dos shows. Os dois primeiros trabalhos do grupo – “O Concreto já Rachou”, em 1986 e “Nunca Fomos Tão Brasileiros”, de 1987 – foram produzidos por Hebert Vianna. Logo no segundo disco, a banda teve uma canção censurada e gerou muita polêmica. O nome da música? “Censura”. A letra da música, uma das primeiras criações do grupo, parecia prever o futuro. “Contra a nossa arte está a censura/ Abaixo a cultura/ Viva a ditadura/ Jardel com travesti, censor com bisturi/ corta toda música que vocês vão ouvir”. Na época, o então diretor do Departamento de Censura Federal, Raimundo Eustáquio de Mesquita, justificou o veto pela presença de um palavrão na letra assinada por Phillipe Seabra e André Mueller. “Hora pra dormir, hora pra pensar/ porra meu papai, deixe-me falar”. No caso, a música poderia ser gravada – como foi – mas era proibida sua difusão no rádio e na TV. Diz a lenda que Mesquita, na ocasião, afirmou que a Censura foi “boazinha” com a Plebe Rude. Antes do veto o Departamento teria dado a opção da banda trocar a “palavrinha”, considerada de baixo calão. Os músicos, rebeldes, não aceitaram e compraram a briga. Para a banda, “porra” não era mais palavrão, mas sim, mais uma expressão usada coloquialmente pela Língua Portuguesa.

A Plebe era mesmo diferente das demais. No início da década de 80 o grupo não se contentou com o campo musical e arranhou algumas incursões no cinema. O resultado foi o média-metragem “Ascensão e queda de quatro plebeus”, produzido pelo baterista Gutje Woortman, que conta a história da banda.

Depois do terceiro disco – “Plebe Rude”, de 1988 – , brigas culminaram na saída do guitarrista e vocalista Ameba. Pouco tempo depois, Gutje abandonou o barco, deixando a Plebe com André Mueller e Phillipe Seabra. Gravaram o disco independente “Mais Raiva do Que Medo”, em 1993 pela Natasha Records. A banda terminou em 1994. Quatro anos mais tarde a EMI lançou a coletânea “Preferência Nacional” com as melhores do grupo. Em 1999 o grupo juntou a formação original para lançar o CD ao vivo “Enquanto a Trégua Não Vem”, no ano seguinte. Nessa fase, a banda também participou do Rock in Rio, em 2001.

A Plebe Rude foi a única banda de Brasília que manteve a verve e rebeldia do começo ao fim. No CD ao vivo, o público gritava “A Plebe está de volta”, o que evidenciava mais do que nunca o descontentamento dos fãs do rock nacional com o som que circulava no mercado na época. Mas o grupo parou por ai. Em entrevista ao jornalista Olímpio Cruz Neto, no site Rock Brasília, o líder da banda Phillipe Seabra afirmou que o CD era para encerrar um ciclo de sua vida. Fazer um grande show com a Plebe Rude era sonho antigo. Perguntado sobre novas possibilidades nos velhos moldes em Brasília, Sabra foi cético. “De jeito nenhum, não vai se comparar nunca”. Ainda durante a entrevista, Seabra afirmou que a Plebe foi a banda menos comercial da história do rock brasileiro, apesar do disco de ouro alcançado com a vendagem do primeiro LP.