A história do rock de Brasília – Parte 2


Plebe Rude, do hit “Até Quando Esperar”

 

 

A proliferação 

 

O rock seguiu proliferando dentro da Turma da Colina. Em 1980 surgiram as bandas Metralhas – que tinha Marcelo Bonfá, que viria ser baterista da Legião Urbana – e Blitz 64 – que tinha Gutje Wortman, futuro baterista da Plebe Rute e Loro Jones, depois guitarrista do Capital Inicial. Essas três bandas foram as principais da época, enquanto surgiam cada vez mais grupos “periféricos”, inspirados por elas.

Nenhuma das três chegou a gravar, apesar da Turma apostar bastante no sucesso do Aborto Elétrico e Blitz 64. Ficaram desgastadas e se dissolveram. Os membros foram absorvidos pelas outras bandas da cidade. Renato Russo havia saído do Aborto Elétrico por conta de uma briga com Fê Lemos. No dia em que John Lennom foi assassinado, a banda fez um show em Brasília. O clima estava ruim e Renato quis cancelar, mas foi voto vencido. Sem conseguir a devida concentração, o vocalista não conseguia acertar os versos de “Música Urbana” – que mais tarde seria gravada pela Legião. Fê lemos atirou uma das baquetas da bateria no companheiro. Renato não gostou e abandonou o palco. Depois disso os dois se desculparam e Renato ainda participou de alguns ensaios, mas não ficou.

Na entressafra entre a saída do Aborto Elétrico e surgimento da Legião Urbana, Renato Russo fez vários shows sozinho. Ele e o violão. Se auto-intitulava de O Trovador Solitário. Público não era problema. Com o marasmo que levava os adolescentes locais ao desespero, qualquer um tocando um violão em cima de um palco era atração. Nessa época ele abria shows de outras bandas e apresentava músicas novas. Uma delas foi nada menos que “Faroeste Caboclo”, que viria a ser uma das mais cultuadas canções do rock brasileiro. Algumas músicas desse período, entre elas “Geração Coca-Cola”, “Por Enquanto” e “Boomerang Blues” – a última nunca lançada nacionalmente –, gravadas em um show ao vivo, estavam em na fita cassete que foi aprovada pela EMI, antes da Legião Urbana gravar a primeira demo.

A primeira banda a surgir, entre as que viriam a ser sucesso nacional, foi a Plebe Rude, em 1981. em 1982 eram instituídas a Legião Urbana e Capital Inicial. Mas a Legião foi o carro chefe da Turma. No dia 1º de janeiro de 1985, data do lançamento de “Legião Urbana”, pela EMI, primeiro LP da banda, o punk já era passado distante e o new wave estava condenado ao mesmo destino. A banda só poderia refletir esse fragmento de estado criativo, onde não haviam mais influências e todo novo artista estava condenado a inventar o próprio som. Mas a rebeldia estava viva, como se via nos primeiros versos da primeira canção do primeiro trabalho: “Tire suas mãos de mim/ eu não pertenço a você/ não é me dominando assim/ que você vai me entender/ eu posso estar perdido/ mas eu sei muito bem aonde estou…”

Nesse mesmo LP, outros clássicos da rebeldia como “Soldados”, “O Reggae”, “Bader Meinhof Blues”, “Petróleo do Futuro” e “Perdidos no Espaço”, garantiram a identificação com a juventude da época. Era o início do legado intelectual do rock brasileiro. Em 1986 chegam os primeiros trabalhos de Capital Inicial – “Capital Inicial”, pela Polygram – e Plebe Rude – “O Concreto Já Rachou”, pela EMI.

Todos os trabalhos na mesma linha. O som do Capital Inicial sempre foi o mais pop entre as bandas da Turma da Colina, mas o disco trazia duas canções que mais tarde viriam a ser os hinos do punk do momento: “Veraneio Vascaína” e “Fátima”. Ambas as letras levam assinatura de Renato Russo e faziam parte do repertório do Aborto Elétrico.

Enquanto o triunvirato de Brasília começava a vingar, a cidade já fazia suas apostas para ver qual seria a quinta banda da Capital a ganhar o País. Muito se apostou em Detrito Federal, Escola de Escândalo e Finis Africae. No entanto, nenhuma delas conseguiu.

O Detrito Federal chegou perto. Em 1986 a banda se apresentou no programa Mixto-Quente da Rede Globo. No ano seguinte assinou contrato com a Polygran, gravadora pela qual lançou o único trabalho. O disco foi produzido pelo baterista dos Titãs, Charles Galvin. A banda tem uma história curiosa: no início da década de 90, o baixista Milton foi tirado da banda por se desentender com o baterista Cascão, na época único integrante da versão original. Em represália, a mãe do baixista registrou o nome e proibiu a banda de usá-lo. Nos últimos shows antes do fim decretado, o Detrito Federal se apresentava sob o pseudônimo “A Mãe do Milton”.

Nascida da fusão entre Blitz 64 e Vigaristas de Istambul – uma banda pioneira e outra periférica, respectivamente – a Escola de Escândalos era considerada pelos teóricos da música brasiliense uma banda tão forte quanto Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. O líder do grupo, Bernardo Mueller, irmão do baixista da Plebe Rude, André Mueller, era considerado um letrista a altura de Renato Russo. O grupo também se apresentou no Mixto-Quente e fez várias apresentações no eixo Rio-São Paulo, assim como as três outras.