O rock de Brasília – Parte 1


Renato Russo, Fê Lemos e André Pretórios, formação inicial do Aborto Elétrico

Como diria Lobão, “eu sei que o rock errou”… 

Eu diria que quem errou foi o público… o rock também não é mais o mesmo, mas, como toda expressão cultural, ele nada mais é do que o reflexo da sociedade que, por sua vez, também não é mais a mesma,  acompanha o processo de mediocrização e estupidificação do Brasil, acelerado nos últimos anos… exatamente como queriam os militares durante a Ditadura… 

O plano deles deu certo, só que com 20 anos de atraso… um regime militar com a sociedade burrificada que o Brasil tem hoje, teria tudo para ser eterno… 

Numa faísca de saudosismo, pros jovens que não conheceram o bom do rock brasileiro e para os trintões e quarentões que tem saudade, publico, em série, uma pesquisa sobre a história do rock de Brasília

O tédio de Brasília, por incrível que pareça, foi o terreno mais fértil para o criacionismo roqueiro brasileiro…

 

 

 

 

Os filhos da Revolução – A origem

 

Nó começo era apenas uma turma de adolescentes que gostava de ouvir rock, tomar p de vinho, fumar uns baseados e cheirar benzina de vez em quando. É difícil demarcar o ano exato dos primeiros movimentos do rock de Brasília. Tudo aponta para os últimos anos da década de 70, quando a adolescência da Capital Federal teve os primeiros contatos com o punk. Definir o motivo pelo qual a adolescência daquela época não foi apenas mais uma turma entre tantas que já existiram em várias outras cidades, já não é tão difícil.

A cidade foi projetada e construída para receber diplomatas, militares e políticos. Ninguém pensou nos seus filhos. A juventude teve que se virar como pôde para espantar o tédio da Brasília construída para os adultos. Com isso, cada show de uma banda de rock formada entre a turma era uma atração. Vem daí a propagação da música pelas mentes jovens da Capital do País. Uma fatia considerável da adolescência brasiliense se identificou com o rock. Mais tarde, essa identificação criaria a Turma da Colina. Da Turma saíram seis das mais importantes bandas do rock nacional: Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso e Raimundos.

A primeira banda montada e constituída oficialmente como banda de rock em Brasília foi o Aborto Elétrico, em 1978. A primeira formação foi Fê Lemos – hoje baterista do Capital Inicial – na bateria, André Pretórios na guitarra e Renato Russo no contrabaixo e vocal. O som do Aborto Elétrico era claramente influenciado pelo Sex Pistols, banda norte-americana de punk-rock. Renato Russo e Fê Lemos tinham 22 e 20 anos, respectivamente, e até então eram os principais líderes da Turma da Colina. Na influência do Aborto Elétrico vem outro fator importante para o surgimento do rock em Brasília da forma como o conhecemos hoje. André Pretórios era filho do embaixador da África do Sul e o principal responsável pela vasta importância que a Capital Federal tem para o rock brasileiro. Vieram nas mãos de Pretórios para a Turma da Colina os primeiros discos e fitas de rock que aquele pessoal ouvia. Eram bandas que estavam no topo do mercado internacional como The Cure, Sex Pistols, The Clash e Ramones, entre outras.

Pretórios não tinha a menor intenção. Tanto é que saiu do Aborto Elétrico em 1981, quando voltou ao seu país para servir o exército, dramaticamente envolvido na manutenção do Apartheid. Anos mais tarde, em entrevista à jornalista Sônia Maia, publicada na revista Bizz, Renato Russo disse o Aborto Elétrico acabou virtualmente quando “Pretórios saiu da banda e foi para a África do Sul Matar negros”. Da última vez em que foi visto pela Turma da Colina, nada de cabelos esquisitos e calças rasgadas, visual comum do punk. Pretórios havia aderido à onda new wave no início dos anos 80. Mal sabia ele que o primeiro passo já havia sido dado. Não sabia e nunca soube. Morreu de o overdose nos Estados Unidos, em 1985.