um Charles chamado Chaplin


 

Você pode não entender nada de cinema, tampouco de críticas sociais e, muito menos, de nazismo, fascismo, comunismo e outros assuntos ligados aos direitos humanos. Mas, certamente, você já viu ou ouviu falar no Carlitos. E, imediatamente, chega à mente a imagem do maltrapilho esguio e pretensamente bem vestido, com as calças largas e o paletó justo, num andar cômico sobre sapatos enormes, sob o chapéu coco e apoiado em uma bengala de bambu. Isso quer dizer que, definitivamente o criador desse personagem conseguiu eternizar sua vida e obra no imaginário popular.
Quando era uma criança a vagar pelos pobres becos de Londres, Charles Chaplin não poderia esperar que, ao final de sua vida, sua fama e fortuna lhe teriam dado uma existência bastante confortável. Conheceu de perto a miséria e a pobreza. A mãe, uma cantora de teatro, foi abandonada pelo marido quando ainda era muito jovem e teve que trabalhar muito para se manter com os dois filhos pequenos.
A primeira aparição de Charles Chaplin nos palcos foi também a última de sua mãe. Com a voz enfraquecida e enferma pela dura sequência de trabalhos, Hannah Chaplin ficou afônica no meio de uma apresentação em um teatro para soldados e outros toscos, nos subúrbios de Londres. Seu empresário, que já tinha visto a criança fazer algumas imitações, sugeriu que o filho fosse ao palco para concluir o espetáculo. O resultado: um show cômico de sucesso absoluto. Na ocasião, ele estava com cinco anos.
Por mais que sentisse sua predestinação, Chaplin ainda demoraria algum tempo para poder dizer que realizara o sonho de viver como ator. Trabalhou em diversas áreas diferentes (em muitas delas, no papel de entregador ou mensageiro), e, mais tarde, teria dito aos amigos que, não fosse o capricho do destino, ele teria se tornado um mordomo.
Depois de uma série de trabalhos teatrais de pouco sucesso na Europa, mudou-se para os EUA no começo do século, conheceu a incipiente tecnologia do cinema e mais, encontrou um público que tinha mais afinidade ao tipo de humor proposto por ele do que o expectador europeu. Já não vivia na miséria há um bom tempo quando criou seu personagem mais famoso, e que lhe traria fama e fortuna. Mais tarde, Charles Chaplin confessaria que da observação das ruas escuras e úmidas da periferia, viria a nascer seu mais famoso personagem, o Vagabundo (The Little Tramp nos EUA, Charlot, na Europa), conhecido no Brasil como Carlitos.
O público fiel ao cinema o considerava um comediante. Mas, para Chaplin, fazer rir era a consequência da sua obra, não o objetivo. “Amo a tragédia porque é bela. A única comédia que vale a pena é aquela que contém a beleza”, disse ele próprio certa vez. Trocando em miúdos, se não fosse pra interferir na vida, não havia sentido em produzir a arte.
A crítica social sempre esteve presente em suas obras, como “O Imigrante”, que criticava a forma desumana como eram tratados os imigrantes que chegavam aos EUA, ou “Em Busca do Ouro”, baseada na vida dos garimpeiros do Alasca, e o exemplo máximo da sua vertente política, o “Grande Ditador”, seu primeiro filme falado, lançado em 1940, portanto, antes de vir a público a carnificina de Hitler e Mussolini durante a 2ª Guerra Mundial.
Mais tarde, o próprio Chaplin confessaria sobre o filme: “Eu o realizei porque detesto os ditadores e queria mostrar o que há de grotesco e cômico neles. E fazer as pessoas rirem deles. Se eu tivesse conhecido os verdadeiros horrores dos campos de concentração alemães, jamais poderia ter realizado um filme como ‘O Grande Ditador’, a ridicularização da loucura homicida dos nazistas”.
A principal vocação de Chaplin talvez tenha sido ser uma pedra no sapato do sistema. Suas primeiras críticas sociais geraram antipatia do governo americano, “O Grande Ditador” provocou a mobilização de agentes diplomáticos alemães para tentar – sem sucesso – impedir o seu lançamento. Rebelou-se contra o conservadorismo moderno da indústria cinematográfica americana, redigiu um manifesto chamando Hollywood de fútil e mudou-se para a Europa. “A América já me enfartara com os seus insultos e seu moralismo pomposo”, disparou. Estabeleceu-se na Suíça. E continuou a fazer filmes.
Em 1972 os Estados Unidos parecem ter reconhecido a injustiça contra Chaplin. “Se uma nação pudesse enrubescer coletivamente, os Estados Unidos tinham uma boa razão para isso”, disse um trecho transcrito de um editorial do New York Times. Em 1975, foi condecorado pela Rainha Elizabeth II como Cavalheiro da Coroa Inglesa. No Natal de 1977, Sir Charles Chaplin morreu em sua casa em Corsier-sur-Vevey, na Suíça.