PRA QUE SERVE A MÚSICA? – A VIDA E A OBRA DE CHICO BUARQUE – PARTE 2 e final


 

 

Agora a segunda e última parte de meu artigo científico candidato a monografia sobre a vida e a obra de Chico Buarque… aconselho aos leitores que procurem ouvir as músicas cujo as letras estão discriminadas no texto, principalmente “Eu não sonho mais”, que é fantástica…

 

 

2.2 – “Apesar de você” (1970-1980) o despertar sócio-político

 

A década de 70 nascia e era como se inaugurasse um novo Chico Buarque, que voltara da Europa menos inocente e mais birrento, e que anos mais tarde chegou a declarar que passava mais tempo preocupado enganar a Ditadura Militar do que em escrever músicas. Em contrapartida, tornou-se o alvo-preferido do carimbo dos sensores, cada vez mais atentos aos seus versos. O autor teve várias canções barradas pela censura nessa época, como “Apesar de Você”, censurada pelo presidente Médice em 1970 e só liberada oito anos mais tarde. Era a proposta de ruptura do atual e esperança de um futuro liberador e vingativo. O próprio autor chegou a narrar essa chegada aos meios políticos:

 

“Eu vi realmente começar a entender o que estava acontecendo quando cheguei de volta, em 1970. era uma barra muito pesada, véspera de Copa do Mundo. Foi um susto chegar aqui e encontrar uma realidade que eu não imaginava. Em um ano e meio de distância dava para notar. Aqueles carros entulhos com os ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’, ou ainda ‘Ame-o ou morra’, nos vidros de trás. Mas não tinha outra, eu sabia que era o novo quadro, independentemente de choques ou não. ‘Muito bem, é aqui que eu viver’. Que realmente eu já estava aqui de volta.”

 

Apesar de Você

(Chico Buarque, 1970)

 

Hoje você é quem manda

Falou, tá falado

Não tem discussão

A minha gente hoje anda

Falando de lado

E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado

E inventou de inventar

Toda a escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar

O perdão

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Eu pergunto a você

Onde vai se esconder

Da enorme euforia

 

Como vai proibir

Quando o galo insistir

Em cantar

Água nova brotando

E a gente se amando

Sem parar

 

Quando chegar o momento

Esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros, juro

Todo esse amor reprimido

Esse grito contido

Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza

Ora, tenha a fineza

De desinventar

 

Você vai pagar e é dobrado

Cada lágrima rolada

Nesse meu penar

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Inda pago pra ver

O jardim florescer

Qual você não queria

Você vai se amargar

Vendo o dia raiar

Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir

Que esse dia há de vir

Antes do que você pensa

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Você vai ter que ver

A manhã renascer

E esbanjar poesia

Como vai se explica

Vendo o céu clarear

De repente, impunemente

 

Como vai abafar

Nosso coro a cantar

Na sua frente

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Você vai se dar mal

Etc. e tal

 

O quarto disco vende 100 mil cópias revela uma fratura na produção de Chico Buarque. A situação é de ruptura. O autor o lirismo nostálgico e intensifica a crítica social, desenvolvendo também a pitada utópica de sua poética. Passa a encarar o tempo não mais como algo que dilui as coisas, mas como algo que traz em seu ventre a virtualidade da transformação. Em suas canções, o tempo era sempre um “por vir”, e não mais um passado a ser recuperado. Na fase em que esteve afastado das discussões políticas, o autor quase que recusa o tempo, mas a partir da virada da década apresenta a concepção de que o homem se faz na história, e suas canções se tornam utópicas, reivindicando vigorosamente os sinais de um futuro irreversível.

Outras músicas entram no seleto grupo de “Apesar de Você”, como “Deus lhe Pague”(1972), “Quando o Carnaval Chegar” (1973) e “Cálice” (em parceria com Gilberto Gil em 1973). Verifica-se nessas canções uma semântica da repressão, como se essa repressão fosse um elemento cultural das canções. Nessa época começa um duro confronto com a censura do Governo Médici, num jogo desgastante entre compositor e censor. Algumas canções foram proibidas na totalidade, outras têm versos cortados. Em alguns casos a censura era política, em outros, moral. Era a velha aliança de qualquer ditadura, unindo a repressão política com a sexual.

Como driblar a censura? Chico Buarque assume as identidades de Juninho de Adelaide ou Leonel Paiva, e ironicamente canta em “Jorge Maravilha”:

 

“Você não gosta de mim

mas sim a sua filha”

 

Os pseudônimos foram expedientes de curta eficácia. A censura logo criou a obrigatoriedade de se apresentar o número do CIC e do RG junto ao nome do compositor e da obra. Até 1978 Chico Buarque se tornaria o artista mais visado pela censura no Brasil, graças ao seu inquietante jeito de lidar com as palavras.

O auge da crítica social veio em 1979, com a pela de teatro “Ópera do Malandro”, cujo canções fazem parte do seu sexto disco, lançado naquele ano. Os versos daquela mais nova investida de Chico Buarque não deixaram intactos nem os mais sólidos valores da sociedade, como o amor dos pais pelos filhos. Com a depressão política, caminhando ao lado de uma liberação no lado moral da censura, o autor trata de temas até então considerados tabus nas canções populares, como a prostituição, em “Viver do Amor”, bissexualidade, em “Geni e o Zepelim” e o amor entre duas mulheres, em “Mar e Lua”. E cantando como uma dona de casa, sonhou reproduzir a história de um homem que foi encontrado pela Ditadura Militar em “Eu não sonho mais”

 

Eu não sonho mais

(Chico Buarque, 1979)

 

Hoje eu sonhei contigo

Tanta desdita, amor
Nem te digo
Tanto castigo
Que eu tava aflita de te contar

Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina toda
E quer sufocar

Meu amor
Vi chegando um trem de candango
Formando um bando
Mas que era um bando de orangotango
Pra te pegar

Vinha nego humilhado
Vinha morto-vivo
Vinha flagelado
De tudo que é lado
Vinha um bom motivo
Pra te esfolar

Quanto mais tu corria
Mais tu ficava
Mais atolava
Mais te sujava
Amor, tu fedia
Empestava o ar

Tu, que foi tão valente
Chorou pra gente
Pediu piedade
E olha que maldade
Me deu vontade
De gargalhar

Ao pé da ribanceira
Acabou-se a liça
E escarrei-te inteira
A tua carniça
E tinha justiça
Nesse escarrar

Te rasgamo a carcaça
Descemo a ripa
Viramo as tripa
Comemo os ovo
Ai, e aquele povo
Pôs-se a cantar

Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina toda
E já não tem paz

Pois eu sonhei contigo
E caí da cama
Ai, amor, não briga
Ai, não me castiga
Ai, diz que me ama
E eu não sonho mais

 

 

Viver do Amor

(Chico Buarque, 1979)

Pra se viver do amor
Há que esquecer o amor
Há que se amar
Sem amar
Sem prazer
E com despertador
– como um funcionário

Há que penar no amor
Pra se ganhar no amor
Há que apanhar
E sangrar
E suar
Como um trabalhador

Ai, o amor
Jamais foi um sonho
O amor, eu bem sei
Já provei
E é um veneno medonho

É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
E compreender
Que o amor não é um vício
O amor é sacrifício
O amor é sacerdócio
Amar
É iluminar a dor
– como um missionário

 

 

Geni e o Zepelin

(Chico Buarque, 1977-1978)

 

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co’os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo – Mudei de idéia
– Quando vi nesta cidade
– Tanto horror e iniqüidade
– Resolvi tudo explodir
– Mas posso evitar o drama
– Se aquela formosa dama
– Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
– e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

 

Mar e lua

(Chico Buarque, 1980)

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

 

 

 

2.3 – “Vai passar” (1980-1984) o período pós-turbulência

Os anos oitenta foram mais discretos para Chico Buarque que as duas décadas anteriores. Antes do movimento Diretas Já, marco político na história do Brasil, lançou apenas dois discos, o “Saltimbancos Trapalhões”, com composições para o filme de mesmo nome, que traz parcerias com o quarteto e com Lucinha Lins, e, “Para Viver um Grande Amor”, em 1983, uma espécie de tributo às amizades que havia reunido na estrada. O disco trouxe diversas parcerias com Djavan e outras participações como Carlos Lyra, Vinícius de Moraes e Olívia Byington.

 

“Por ouro lado, com a ‘depressão’ política subseqüente, manifesta-se o seguinte fenômeno: a canção popular pode deixar de ser o veículo para se dizer tantas coisas – que passarão a ser ditas através dos ‘canais competentes’ (mesmo os da televisão, no debate político, na imprensa). Daí um maior ‘descomprometimento’, em termos de temática político social das canções de 1980 em diante. Volta temas intimistas como as canções de dó de peito, de relacionamento amoroso fracassado e exercícios de pura ‘curtição’ verbal, como ‘Morena de Angola’. Chico se vê desobrigado de ser, nos seus próprios termos, um profissional de protesto”