Pra que serve a música? – A vida e a obra de Chico Buarque – Parte 1


ou “Será que estamos mais burros?!

 

 

 

Lembro-me de que, em algum momento (2005 ou 2006), tentei convencer que a música era um meio de comunicação… os professores da faculdade de jornalismo não engoliram (depois nego acha ruim que  caiu a obrigatoriedade do diploma) e minha ideia de publicar uma monografia sobre a vida e a obra de Chico Buarque perdeu força. 

 

Em vez de ficar aqui reclamando de música ruim, dos “ai se eu pego” da vida, vou publicar, em capítulos – já que o texto é bem longo – o artigo científico que escrevi sobre a vida e a obra de Chico e a importância da música (de qualidade) como instrumento de politização da sociedade civil. 

 

Como aqui não tem ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) pra me encher o saco, vou começar pela conclusão. Depois entro na linha do tempo de Chico Buarque, sem dúvida um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos e inegavelmente, a maior pedra no sapato da ditadura, da mediocridade e da burrice do brasileiro

 

 

CONCLUSÃO

Política e música podem andar juntas. E é isso que esperam os receptores da mensagem que a música guarda enquanto meio de comunicação. E a atitude do engajamento sócio-político pode, comprovadamente, surtir efeito sobre o meio e o sistema vigente. As ações temerárias do Governo Militar contra a classe artística, neste artigo em especial, contra Chico Buarque, nada mais são do que demonstrações de receio por parte de um grupo dominante para com um grupo teoricamente dominado, mas com poder de se manifestar por metáforas através da música. E conforme demonstrado nessa pesquisa, havia a cobrança do público pelo engajamento da classe artística, e a produção cultural pode ser uma grata resposta a sistemas repressores.

 

 

na foto, o jovem Chico

Um brasileiro (1960-1970) biografias de Chico Buarque

Deixar de lado a vida de Chico Buarque nos anos 60 seria negar a base das idéias abordadas entre 1970 e 1984. Esse tópico traça uma linha do tempo entre os acontecimentos na sociedade brasileira e a vida e obra do artista nesse período.

Quando chegou à vida universitária, o Brasil vivia a emergência de movimentos populares, que tiveram seu auge entre 1962 e 1964. O início dos anos 60 foi o palco de um dos mais intensos debates ideológicos de sua história. O Brasil se politizava, com diferentes setores da população, entre grupos de movimento cultural, centrais sindicais e ligas camponesas.

Chico Buarque não fazia parte dessa efervescência na primeira metade da década de 60, e na segunda metade, foi um ponto de interrogação na cabeça dos movimentos políticos, culturais e até da Ditadura Militar. Justamente por isso esse período não será aprofundado. O próprio artista chegou a confessar seu desinteresse pela política e pelo curso de Arquitetura da USP (Universidade de São Paulo). Para ele, carioca da gema, a capital paulista tinha a vida boêmia e a proximidade com a maior parte dos artistas de destaque na época, como algo muito mais atraente do que a faculdade ou movimentos de classe.

Nessa época vieram os três primeiros discos, em 1966, 1967 e 1968. Uma das músicas que reflete bem essa época é “A Banda”, música que trazia o personagem ficava inerte, vendo os acontecimentos à sua volta, como nos versos: “e cada qual no seu canto/ em cada canto uma dor/ depois da banda passar/ cantando coisas de amor”. O próprio artista deu declarações sobre o assunto, onde confessa seu distanciamento:

 

“O meu interesse – e também meu desinteresse – político vem do tempo da Universidade. Ou melhor, um pouco antes, já no vestibular. Mais aí veio 1964, e eu me desencantei: como sentindo assim uma mudança violenta no sistema mesmo. E dentro da faculdade a coisa se sentia muito forte em 64, tanto que certa forma eu larguei os estudos. O desinteresse pela política e pela arquitetura vem daí; a Faculdade ficou uma chatice. Evidentemente eu não era nenhum aluno destacado, mas me interessava pela vida universitária: e isso incluía a música e a política dentro da Universidade. A partir de 1º de abril, isso tudo mudou. E foi tanto o desinteresse, depois, que até mesmo os momentos de 68 me viram um pouco à margem. Naquela época, por exemplo, só fui à passeata dos Cem Mil porque realmente não ir seria forte demais. Seria quase um posicionamento a favor”

 

As primeiras canções de Chico Buarque realmente revelam uma atitude básica de distanciamento. A marca é a da nostalgia, a ânsia por um retorno ao tempo em que não haja dor. Essa atitude de espectador rendeu críticas, dele próprio. Em “O Velho”, canção de seu terceiro disco, de 1968, ele traça uma autocrítica dessa fase de sua vida política, como nos versos:

 

“A vida inteira diz que se guardou/

do Carnaval, da brincadeira/ que ele não brincou”

 

Veio o AI-5 em 1968 e a classe artística, que até então tinha sido relativamente preservada – com exceção daqueles que se engajaram em movimentos de classe – recebeu um áspero golpe, e começou a sentir de perto o cotidiano de torturas, desaparecimentos misteriosos, censura extrema e exílios. Dessa época é “Sabiá” – também do terceiro disco –, uma canção de exílio interior, que mostra uma pátria configurada pela carência, esvaziada:

 

“Quero deitar à sombra de uma palmeira que já não já/

colher a flor que já não dá”.

 

Foi nessa época em que começou a perder o selo de “única unanimidade nacional”. Uma peça de teatro de sua autoria, Roda Viva, dirigida por José Celso Martinez Correia, trazia como tema justamente a desmistificação de um ídolo popular, destruindo a imagem consumível de menino comportado que conquistara a sensibilidade do público com seu lirismo quase inocente. O diretor foi responsabilizado pelo radicalismo agressivo da peça, mas Chico Buarque o assume.

“Sabiá” foi premiada no III Festival Internacional da Canção em 1968, e radicaliza-se então outra frente de oposição a Chico Buarque. Ele passa a ser hostilizado também pela esquerda, partida ardorosa de “Caminhando e Cantando”, de Geraldo Vandré. Mais do que isso, passa a ser considerado reacionário, por todas as músicas que encaminhou a festivais naquele ano. Todas premiadas, inclusive. O compositor foi considerado como um artista que deu um passo atrás na linha evolutiva. Foi tachado de “passadista” pelos tropicalistas, ao mesmo tempo em que passou a ter problemas com a polícia, recolhendo-se quase a um regime de prisão domiciliar, sem falar da oposição feita a ele pela Jovem Guarda.

A repercussão da peça Roda Viva fez com que Chico Buarque e a esposa Marieta Severo, fosse convidados a deixar o Brasil, o que fez com que uma temporada que faria por alguns meses na França se alongasse por mais de um ano, na Itália. Dessa época ecoam os versos de Samba de Orly, uma das canções do seu quarto disco, obra que foi metade construída em solo italiano:

 

“Pede perdão pela duração dessa temporada/

mas não diga nada que me viu chorado/

e pros dá pesada, diz que vou levando”