A podre engrenagem política brasileira


 

Há alguns anos uma série de propagandas veiculadas pela ABA (Associação Brasileira dos Anunciantes) me despertou para uma triste realidade: o brasileiro é um povo corrupto, egoísta e mesquinho. A inércia do Congresso Federal na hora de punir os grandes parasitas do dinheiro público nada mais é do que um reflexo fiel do eleitorado nacional.

Afinal, corruptos ou não, corruptíveis ou não, cada um deles, deputados, senadores e presidente da República, são legitimamente eleitos pelo voto popular. Estão lá pela única e exclusiva vontade do povo.

Quem não se lembra da frase “O Melhor do Brasil é o Brasileiro”? Esse era o mote da série de propaganda da ABA. E o pior do Brasil é o quê? Talvez sejam suas praias, suas riquezas naturais, sua diversidade cultural. Pelo contrário, o pior do Brasil é o brasileiro.

Constatação que não cabe argumento: a enorme e onerosa cadeia de corrupção da vida pública no Brasil (que começa no reles vereador e vai até os gabinetes do Palácio do Planalto) está sustentada em uma base tão sólida que mina a esperanças até dos mais otimistas. Essa engrenagem podre que é a política brasileira está sustentada no eleitor.

Exatamente. No eleitor. Cidadãos comuns, como eu ou você, que encaram o voto como uma simples obrigação em um dia em que poderiam ficar em casa tomando cachaça e dormindo até mais tarde. Enquanto o voto for uma obrigação para o eleitor, é a mais valiosa das mercadorias para os políticos.

O eleitor é o primeiro que encosta no candidato a qualquer cargo eletivo oferecendo seu voto em troca de um favor, de qualquer tamanho, desde um par de sapatos ou algum dinheiro, até pesados tráficos de influência que rendem bilhões aos predadores que estão no topo dessa carniceira cadeia alimentar. Investir em partidos, PT, PSDB, DEM, entre outros, é assunto comum em rodas de empresários de qualquer tamanho.

Como para dirigir um carro exige preparação em escolas de motoristas, escolher o futuro do país deveria ser um direito conquistado, não uma herança de lutas gloriosas de um passado nem tão recente assim.

Hoje qualquer infeliz é obrigado a votar e um conjunto enorme de infelizes elege infelizes composições legislativas, infelizes chefes de executivo. Era para ser o contrário. Além dos candidatos aos cargos eletivos, deveriam existir os candidatos a eleitor. E para conquistar um título de eleitor, o cidadão teria que ser obrigado a provar que sabe o que está fazendo, sabe o que quer, sabe o que pensa e – o mais importante – sabe qual é o resultado do gesto de apertar uma dezena de botões na urna eletrônica no dia da eleição.