Síndrome de Garfield


 

Não me lembro de onde eu conheci o Garfield, o carismático e preguiçoso gato criado por Jim Davis. Quando era criança, meu pai assinava jornais, primeiro o Jornal da Cidade, de Bauru, depois a Folha de São Paulo. Acho que foi neste segundo que me acostumei a ver as tirinhas do felino mal humorado e ligeiramente acima do peso.

Quando era criança, eu e meus dois irmãos mais novos ganhamos quadros com piadas dele, cada um ilustrando uma frase eternizada pelo gato. O meu era “Não nasci para acordar cedo”, pensamento que ficava dentro de um balãozinho enquanto ele preparava o café da manhã com as panquecas enlatadas americanas. O que, com o passar do tempo, provou-se não ser tanto meu perfil. Tanto é que, antes das 8h, cá estou a escrever um texto para o blog.

Acho que era o quadro do meu irmão mais novo que tinha uma frase ainda mais famosa do Garfield: “Odeio segunda-feira”, pensava o felino, enquanto pisava em um chiclete.

Essa frase sim tem a ver comigo. E com 99% da humanidade.

Quase toda segunda-feira essa frase me vem à cabeça. Hoje, enquanto preparava o café da manhã (que consiste em uma ou duas xícaras de café, paroxetina e cigarro), pensei neste quadro.

E enquanto fumava o cigarro e bebia o café, já entorpecido pelo medicamento antidepressivo, olhei para os céus e vi as nuvens negras contrastando com o azul cintilante da pressão atmosférica (parece que o espetáculo da natureza perde um pouco da magia quando conhecemos cientificamente seus fenômenos), coloquei-me a pensar na delicada matemática de contas a pagar x contas a receber x datas de vencimentos.

Olhei para os céus de novo e o sol chegava, tímido, porém dando brilho branco e prata nas nuvens cinzentas da manhã. Não havia conhecimento científico (nem uma ou duas gotas de chuva que ameaçaram cair) que abalasse a constatação de que um lindo dia surgia, cheio de cores, bem diante dos meus olhos.

Fiz a minha oração habitual, agradeci a Deus por mais um dia, pelo trabalho que me dá sustento e me permite ter a minha família, por meus pais, por meus irmãos.

E por último, agradeci a Ele por mais um dia cheio de cores. Mesmo que algumas delas fossem tons de cinza. Talvez – e só talvez – sem o cinza, o contraste branco-azul-prata dos céus não fosse um espetáculo tão belo.

Não que eu goste das segundas-feiras. Mas, se elas não existissem, o Garfield odiaria as terças.