Conto de uma tarde fria


 

Escrito no inverno de 2008, antes da minha terceira fêmea nascer…

 

 

Acordei quase duas horas da tarde. Nada comum, mesmo se tratando de um feriado. Afinal, em tempos normais, estaria eu trabalhando, em pleno Dia do Trabalho. Tenho que agradecer às minhas férias.

 

Ah.. férias. Devia tirar férias de um mês todos os meses do ano. Saí de casa e encontrei uma tarde fria, chuvosa, nublada, com temperatura visivelmente abaixo dos 18 graus. Enfim, até então, um dia perfeito.

 

Depois de tomar café da manhã às três horas da tarde, aventurei-me a ir ao shopping. Obviamente não por iniciativa própria, mas sim por companhia. De duas mulheres.

 

Shopping e mulheres é uma combinação complicada. Foram poucos minutos até que eu ficasse entediado. Pus-me a observar aquela enorme construção, recheada de vidros e cores e gente, muita gente. Gente bem vestida, bem arrumada, tratando a convivência naquele espaço como um dos grandes programas da semana encurtada pelo feriado prolongado.

 

Acho que shoppings são monumentos faraônicos em homenagem à imbecilidade humana e sua vocação indiscutivelmente nata para o capitalismo. Ainda mais em um país pobre – culturalmente falando – intelectualmente suburbano. País chamado Brasil.

 

Percebi logo que meu tédio não seria companhia apropriada. Desvencilhei-me das fêmeas e me propus a analisar a fauna humana naquele ambiente. Seria um exercício engraçado de observação ver as socialites tomando um café da Kopenhaghen (é assim que escreve?) sentindo-se em pleno Natal de Nova Iorque.

 

Tomei o tal café também. Muito bom, por sinal. Também, por R$2,40 axícara pequena de expresso, tem mais é que ser bom mesmo.

 

– O do senhor é só o café? – perguntou-me a atendente.

– Sim. E se me chamar de senhor de novo eu quero desconto.

 

Trabalhar em shopping deve promover a exposição a tantos tipos de piadas diferentes que a atendente nem riu.

 

Andei, andei, andei…. e confesso que, como todo bom caipira, me diverti dando voltas na escada rolante, subindo, descendo, subindo, e descendo de novo. Ainda coube um registro sobre a estupidez dos boçais que se abalam a abandonar o conforto do boteco mais próximo para enfrentar meia hora de fila no estacionamento e tomar um chope no shopping. É claro, pagando o dobro do preço.

 

A lousa do barzinho improvisado no meio do saguão superior anunciada a promoção do dia: chope e linguiça frita. Não pode fumar no shopping, mas fritar linguiça pode.

 

Fumar. Boa idéia. Afinal, havia muito eu já tinha me cansado daquele mundo de formigas capitalistas girando em torno das vitrines, como se elas fossem de açúcar.

Procurei a saída mais próxima em busca dos chiqueirinhos, as famosas “área para fumantes”, que consistem em um banco ao ar livre e um cinzeiro que deveria estar (mas não estava) estar cheio de areia.

 

Uma placa avisou onde eu deveria ir: “área para fumantes, saídas A e C”. Lembro-me de ter entrado pela saída C, que, é óbvio, não encontrei. Vai pela A mesmo. Naquele tempo ainda tinha área para fumantes.

 

Saí, fumei meu cigarro sentido a brisa gelada me lembrar que fumantes não são bem vindos no aconchego do ambiente coberto. Ao meu lado descobri uma livraria. Andei, li nas lousas frases e dizeres de gente que me parece bem mais íntima do que aquele povo comprando: Kant, Fernando Pessoa, Gandhi… Aposto que qualquer um deles ficaria também mal humorado num shopping.

 

Terminei de fumar, resolvi entrar. Eu com meu modelito “barba por fazer, cabelo desgrenhado, olheiras, camiseta, calça rasgada e tênis”, era claramente um içá naquele formigueiro. E, curiosamente, na livraria ninguém me olhava como se eu fosse diferente.

 

Fui direto na gôndola dos pockets. Já havia sentido um cheiro de prejuízo, que se tornou mais palpável quando eu achei a Odisséia, de Homero. Até a atendente ficou surpresa.

 

– Olha só. Tem a Odisséia. Nunca pára aqui e eu sempre tenho que pedir mais.

– Pode pedir mais então. Esse é o último – respondi.

 

Mais uma pequena volta na livraria pra eu ter certeza que, tanto eu quanto a livraria, não pertencíamos àquele mausoléu capitalista. Tanto é que ambos estavam próximos à saída. E ouvi me chamar outro livro discreto, com a capa estilo clean e as cores em creme.

 

Dois nomes me chamaram a atenção. Primeiro o do livro, “Esse Ofício do Verso”. Depois, o nome do autor, Jorge Luís Borges. Separei os dois volumes no caixa, e resolvi tomar outro café, pra comemorar. No café da livraria, o mesmo expresso (mais saboroso que o da Kopenhagen) custava R$ 2.

 

E foi quando eu reparei que já havia me separado das fêmeas há mais de uma hora. Paguei a conta. Exatos R$ 55,40, contando o café. Deixei o mausoléu de volta ao chiqueiro dos fumantes. Peguei o celular e liguei.

 

– Já terminamos. Estamos indo.

 

“Já?” Ainda bem que elas foram rápidas. Talvez minha conta na livraria ficasse maior, e o nível de cafeína em meu sangue também. E, curiosamente, não ia reclamar. Com Borges e Homero nas mãos, o templo consumista às minhas costas, o céu cinza no horizonte e a brisa gelada em toda parte, o dia parecia perfeito.