O Cuco fantasiado de cursor


ou “driblando o bloqueio criativo”

 

 

Os amigos leitores não conseguem imaginar o quanto um software editor de texto pode ser cruel. Afinal, crueldade é, ou não é, um privilégio do homem? Ora bolas! Talvez fossem meus olhos cruéis que me pregavam essa peça, quando acabei de reparar que ele, o editor de texto, lista a quantidade de documentos em branco que o usuário abre durante uma sessão.

Fato é que eu já tinha aberto 247 documentos em branco. 248, contando esse em que eu acabei de escrever um parágrafo. E olha que ainda não é nem hora do almoço.

Fato é, também, que eu não contei em quantos dos 247 documentos anteriores eu escrevi mais do que um parágrafo. E contra fatos não há argumentos: abrir 248 documentos significa que eu tentei, por 247 vezes, escrever algo que valesse a pena ser lido.

Ainda se fosse só hoje, só agora, ou só nas últimas três horas, ou só desde a última meia noite. Mas, meu amigo, já faz quase um ano e eu tenho que reconhecer a verdade: isso é um baita de um bloqueio criativo. E prova disso é ficar contando quantos documentos em branco eu tive que abrir antes de admitir que, mais uma vez, por mais um dia, não ia conseguir escrever nada.

Já faz um tempo que jogo no Google o termo “bloqueio produtivo”.

Toda vez o Google me fala “resultados 1 -10 de aproximadamente 219 mil resultados”. Ele pode ser tão cruel quanto o editor de textos. Enfim, nunca entrei em todos os links. Mas uns 10 mil eu, seguramente, visitei.

Encontrei desde coisas das mais óbvias como “faça um brainstorm”, ou piegas como “escreva sobre as coisas que te fazem ter um bloqueio produtivo”. Se eu soubesse o que me faz ter bloqueio criativo não precisaria do Google.

Também achei coisas inúteis, como “vá fazer outra coisa, como cozinhar ou exercícios”. Se eu fizer isso, o resultado vai ser o mesmo. A diferença é que eu vou engordar ou evitar chegar aos 300 documentos em branco. Se, ao menos, eu ganhasse um centavo para cada um deles!

Obviamente que cada um tem uma receita e nada dá certo.

Ou talvez até esteja começando a achar romântico o cursor piscapisqueando no canto alto esquerdo da tela em branco. Dá um ar de ilusão que lembra Drummond, com o seu “Gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever, no entanto ele está cá dentro, inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira”.

Antes tivesse uma unha de Drummond. Nem sou capaz de fazer uma poesia sobre o cursor apagando e acendendo, apagando e acendendo, apagando e acendendo…

Por falar em cursor apagando e acendendo, apagando e acendendo, apagando e acendendo, amigos leitores, lembrei de algo engraçado que me aconteceu agora há pouco.

Quando singrava nesse Google-mar de dicas vazias e horas lendo coisas inúteis tipo “se pergunte o que você fez hoje”, ou “escolha palavras-chave”, achei uma simpatia. Isso mesmo, senhores, uma simpatia! Essas receitas milagrosas com base em crendices populares e sem qualquer fundamento científico ou metodologia.

Não acredito nessas coisas (antes que alguém se irrite), mas essa me parecia tão bizarra e simples ao mesmo tempo, que resolvi fazer. Tinha três etapas:

1 – Saia de casa e demore uma hora pra voltar. Faça o que quiser, mas demora uma hora.

2 – Ao voltar, pare de fazer o que está bloqueado. De preferência, vá dormir.

3 – No dia seguinte, antes de começar a criar, bata três vezes na madeira e conte 24 tempos de intermitência do cursor no documento em branco do editor de textos, e repita em voz alta: “o tempo é meu amigo”.

Pois bem. Ontem deixei para fazer a simpatia nas últimas horas antes de dormir. Quando desisti – pela última vez – de colocar letrinhas no documento em branco, vesti meu casaco (o inverno é frio lá fora) e resolvi que ia tomar um café e comer pão de queijo. Benditas conveniências 24 horas. E tem uma bem aqui perto. Foi difícil arrumar o que fazer por uma hora, mesmo indo a pé.

Depois de tomar o café e comer o pão de queijo, e um chocolate, ainda me sobraram 32 minutos. Não tinha dinheiro para comer mais nada. De qualquer forma, venci o tempo, calculando os exatos oito minutos que demoraria para voltar pra casa. Deitei e dormi.

Acordei cedo até – em relação aos outros dias – e vim direto para computador. Bati na madeira três vezes, contei as 24 piscadelas do cursor, e repeti, pelo menos dez vezes, “o tempo é meu amigo”.

– O tempo é seu amigo? – ouvi uma voz me perguntar, enquanto ainda contava

Não parei de contar.

– Até parece um relógio – insistiu a voz – esses são os segundos? Cuidado que ao meio dia o cuco sai e acerta sua cabeça.

Olhei em volta. A sala estava vazia. “Será que estou tendo alucinações?”, pensei.

Silêncio. Lembrei do cuco, o relógio, que tinha na casa da minha tia-avó. Mas já não tinha certeza se tinha contado os 24 tempos. Resolvi contar de novo.

O que aconteceu na vigésima quarta piscapiscapeada foi cena de desenho animado. Um cuco enorme – acho que tinha uns 30 centímetros –, todo cinzento em com listras brancas nas partes de trás das asas e da cauda, tirou a fantasia de cursor, me deu três marteladas na cabeça, e depois voltou a ser o cursor.

Intermitente no documento em branco.

Fechei aquele documento em branco e abri outro. Era o de número 248. A simpatia não deu certo.

E me convenci: estava ficando louco.